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Posts com Tag ‘Segunda Guerra Mundial’

Umberto Eco em sua obra A Misteriosa Chama da Rainha Loana faz um exercício interessante ao contar-nos a história de Giambattista Bodoni na busca de sua identidade e seu passado. Após sofrer um grave acidente e ter vivido alguns meses em coma Bodoni acorda no leito de um hospital e descobre que perdeu sua memória pessoal ou biográfica embora preserve a memória coletiva (a chamada memória semântica). Continua com a memória enciclopédica de “conhecimento de papel” e as tais informações históricas comuns às pessoas cultas ou assíduas leitoras de jornais, revistas e atentas as inúmeras mídias de informações. Todavia, desconhece o próprio nome, seu estado civil, se possui ou não filhos e desconhece completamente seu passado e tem dificuldades de reconhecer sua própria família. Não consegue compreender, por mais que tente, o que o levou a tal situação de perder justamente sua lembrança afetiva e particular, em via de regra, mais importante para o ser humano em contrapartida consegue lembrar-se de fatos, de pessoas e situações comuns a todo mundo.  Ou seja, a sua memória enciclopédica “de papel” continuou intacta.

Ao receber alta do hospital Yambo (como é conhecido Giambattista bodoni) é levado para casa por sua esposa. Descobre assim que é casado com Paola, têm duas filhas, três netos e mora em Milão. Está na casa dos 60 anos, possui uma loja de livros raros e grande amante e colecionador de obras impressas. Nos primeiros dias ao lado da esposa vai tomando conhecimento de sua rotina como marido, avô, empresário e amante das artes gráficas. Todavia permanece sempre em névoas. Aliás, outra característica do personagem é colecionar, não por acaso, textos que citam névoas, neblina e afins. Uma metáfora clara ao seu desejo de desvendar o que a névoa encobre e encontrar-se a si próprio. Por insistência da esposa, que é uma psicóloga, parte para as montanhas do Piemonte na casa que fora de seu avô na tentativa de reencontrar seu passado e talvez recobrar sua memória encoberta por névoas sombrias e difusas. Em Solara viveu parte da juventude e seria o lugar ideal para recuperar suas lembranças já que lá estão guardados seus livros escolares, suas revistas em quadrinhos, discos e objetos pessoais e familiares que possam trazer-lhe recordações de sua vida afetiva e familiar para então descobrir quem verdadeiramente é. Como no filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”, Yambo descobre-se velho (sem uma história de vida) que precisa regredir à infância através do conhecimento acumulado e experiências vividas para “nascer” novamente e assim recuperar sua identidade como ser humano.

Na página 92 Gianbattista Bodoni diz a si mesmo:

“Yambo, você tem uma memória de papel. Não de neurônios, de páginas. Talvez um dia inventem uma danação eletrônica que permita ao computador viajar através de todas as páginas escritas do início do mundo até hoje, e passar de uma para outra com um toque de dedos, sem que ninguém possa entender mais onde se encontra e quem é, e então todos serão como você”

Um verdadeiro paradoxo que uma pessoa possa reunir tantas informações culturais, sociológicas e tudo mais e mesmo assim levar ao esquecimento daquilo que realmente importa: Sua memória afetiva. Yambo precisa fazer uma viagem de retorno ao passado e mergulhar na leitura de seus cadernos escolares, na tentativa de reconhecer rostos “estranhos” nas fotos familiares, na investigação de seus guardados de infância e juventude, percorrer os inúmeros ambientes daquela casa para vivenciar as mesmas sensações olfativas, visuais, auditivas e de tato que possam lhe trazer (um lampejo que seja) de sua memória particular. Sua busca desesperada por um momento de autoconhecimento nas tantas quinquilharias disponíveis no sótão da casa de campo é uma jornada ao qual o leitor é convidado a participar e, ao fazê-lo, descobre a importância dos acontecimentos ali narrados em uma verdadeira aula da história italiana, do mundo e de toda a raça humana. Não seria exagero dizer que Umberto Eco traz ao leitor um grande painel cultural, social, econômico e algumas lembranças de toda uma geração que presenciou os grandes acontecimentos históricos do mundo antes e depois da Segunda Grande Guerra Mundial. Aqui outro paradoxo: O acúmulo de informação impressa como revistas em quadrinhos, selos, pôsteres, jornais, discos que também pode levar ao esquecimento (metaforicamente acontecido com o personagem principal) também foi o responsável para lançar luz ao conhecimento pessoal uma vez que tal “experiência” em acumular informações também fora adquirido individualmente por este personagem, razão pela qual se utiliza igualmente de tais meios para recuperar sua própria trajetória humana. Tudo meio complicado a princípio, mas à medida que o leitor vai tomando ciência de todas estas imagens impressas vai aprendendo igualmente a reconhecer-se como parte integrante de toda esta cultura humana.

Umberto Eco apresenta sua biografia e suas lembranças muito particulares (e outras tantas recordações comuns a todos nós) em inúmeras ilustrações que o leitor, em algum momento, vai se identificar e, com certeza, virá à tona suas próprias memórias afetivas.  São fotos de revistas, jornais, selos passagens literárias, trechos de canções, poemas e toda uma série de fatos e notícias sobre a sua própria vivência (e as nossas) que distribui em 447 páginas de uma leitura das mais agradáveis e cativantes. A leitura das várias histórias de um povo como um todo narradas no livro é de tal forma interessante que não lembro, sinceramente, a história “pessoal” do próprio personagem principal. Sua busca para desvendar o rosto da primeira namorada sempre encoberta em névoas, suas aventuras e desventuras amorosas com esta mulher desconhecida e a tentativa de descobrir seu atual paradeiro ficaram  sempre relegada a segundo plano (de forma intencional ou não pelo escritor). O leitor (eu particularmente) estava mais interessado nas referências às minhas próprias recordações do que em descobrir e desvendar da névoa o rosto de sua primeira grande paixão de Yambo. De qualquer forma foi uma grande história de amor. Uma outra perspectiva, devo dizer que se pode fazer da leitura de A Misteriosa Chama da Rainha Loana: Uma grande história de amor. Mas são tantas as referências histórias e passagens comuns a todos nós (nossa memória coletiva) que fica difícil ater-se somente aos anseios de Yambo. Confesso que algumas passagens relatadas no livro (principalmente no que se refere aos filmes citados e algumas passagens literárias) trouxeram-me recordações agradáveis e foi realmente interessante ter Umberto Eco como companheiro nesta viagem ao túnel do tempo.

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Assistir ao filme O Ovo da Serpente é como sentir um soco no estômago e ficar sem ar por alguns minutos. Não é à toa que esta produção de Ingmar Bergman é um dos seus trabalhos mais contundentes e que talvez seja o mais conhecido do grande público. Com certeza é o mais político e intenso trabalho de reconstituição de época e um olhar crítico sobre a Alemanha antes do surgimento do Nazismo. Liv Ullmann com seu olhar intenso e sua interpretação soberba dão ao filme toda a dramaticidade que o diretor exige. Não é por menos que Liv Ullmann é a atriz preferida de seus trabalhos. Tanto a admira como atriz e como mulher que casou com ela. David Carradine também está perfeito no papel do judeu Abel Rosenberg.

Abel Rosenberg, um trapezista judeu desempregado, está em Berlim em Novembro de 1923 para tentar descobrir a razão do suicídio de seu irmão. A Alemanha está em crise na república de Waimar em razão da primeira guerra mundial. O povo vive em constantes crises existenciais, econômicas e sociais e o poder político está em franco declínio e os cidadãos vivem sem uma perspectiva de futuro. Neste ambiente de caos o “ovo da serpente” encontra ambiente propício para ser chocado e eclodir com força e mudar os destinos do mundo e da Alemanha.  Abel encontra abrigo em um apartamento de um cientista que também lhe oferece um emprego. Sua cunhada vive como corista em uma boate de quinta categoria e mora em uma pensão e ambos acabam se relacionando nesta semana tumultuada. A solidão de ambos, a miséria em que vivem e o futuro sem futuro os colocam numa situação constrangedora de viver um caso tumultuado. No trabalho Abel desconfia que alguma coisa está errada e, ao investigar o tal cientista, descobre que ele está fazendo experiências humanas em nome da ciência médica e da supremacia ariana e encontra respostas para o suicídio do irmão.

A fome, o desemprego, a superinflação e a violência urbana criam situações de desespero geral aumentando o descontentamento de uma nação criando assim um ambiente favorável para que Hitler encontre eco a sua megalomania de um poder absoluto e tirano. Acima de tudo, encontra um povo disposto a elevá-lo ao topo da hierarquia indiferente aos seus métodos racistas e cruéis. Um retrato fiel de uma Alemanha em crise e uma profunda reflexão sobre as origens do nazismo. O título do filme é uma síntese perfeita das condições que permitiu o surgimento de Hitler e seu regime nazista. Não é um filme para se assistir indiferente e a reflexão se faz necessário até para que não venhamos a cair na mesma armadilha de sermos salvos por falsos heróis e salvadores da pátria egocêntricos e racistas.

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