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Archive for maio \31\UTC 2010

Os Crimes do Mosaico, de Giulio Leoni é uma história interessante sobre mistérios, assassinatos e, evidentemente, algumas charadas que devem ser decifradas para se chegar ao ponto final da trama ambientada na Itália pré-renascentista do século XIV. Agora imagine o poeta Dante Alighieri (aquele mesmo que escreveu a Divina Comédia) atuando como um investigador ao estilo do simbologista Robert Langdon (o personagem de Anjos e Demônios e O Código Da Vince). Sim, porque nesta história também existem símbolos e números a serem decifrados bem como assassinatos a serem esclarecidos.

Na Florença de 1300 um grande artista é brutalmente assassinato e o prior Dante Alighieri é chamado para esclarecer este crime e, nas suas investigações, vai encontrar um grupo de amantes das artes denominados o Terceiro Céu, deparar-se com a misteriosa dançarina Antilia e terá ainda que decifrar o enigma do número cinco que percorre todas as páginas do suspense. Em uma narrativa repleta de descrições ambientais e históricas Giuliano Leoni nos transporta para a efervescente Florença e os domínios do Papa Gregório que buscava, naquela época, o poder absoluto. Mas diferente de Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, o livro não chega a comover ou a entusiasmar muito já que os personagens são inverossímeis e quase abstratos nas suas motivações ou personalizações. Até mesmo a tal bailarina não consegue cativar um leitor mais atento. Os diálogos são fracos e Dante, na pele de um Sherlock Holmes não convence muito. Até porque, ele é intratável e arrogante, apesar de ser um poeta muito inteligente.

A descrição ambiental e histórica da Itália pré-renascentista compensa a pouca relevância da psique dos personagens e o leitor terá que ter boa vontade para prosseguir na leitura. As motivações dos crimes, seus responsáveis e a forma dedutiva de Dante são por vezes um peso a que temos que superar para chegar à última página. De qualquer forma, vale à pena a leitura para os amantes de livros com pano de fundo histórico nos idos dos anos 1300. Segundo consta, Dante será personagem de outros três volumes que espero, sinceramente, sejam melhor que este.

Regina, obrigado mais uma vez pelo empréstimo deste livro!

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Ao terminar de ver o filme Percy Jackhson e o Ladrão de Raios, dirigido por Chris Columbus confesso que fiquei com duas impressões bem distintas uma da outra. A primeira foi que se tratava de uma boa produção para adolescentes ao estilo Harry Potter e, por esta razão, ser um bom filme de aventuras e tudo mais. Afinal, se esta era a proposta da Fox, eles acertaram em cheio porque a gurizada parece que gostou do filme e, pelo andar da carruagem (ou do tilintar da caixa registradora), vem continuação por ai.  Como filme de aventura ele até que é legal com seus efeitos especiais, atores jovens e uma linguagem bem acessível apesar de tratar-se de mitologia grega. A segunda impressão, e a que mais me incomodou neste roteiro, foi justamente este fato: Terem tratado a complexidade da mitologia grega como mais um filme tipo Harry Potter da vida (também dirigido por Chris Columbus). Sabemos que a mitologia, especialmente a grega, é muito superior e mais complexa ainda que este roteiro fraco, enxutíssimo e raso fez supor à imaginação dos adolescentes que desconhecem o assunto. Espero, sinceramente, que a franquia Percy Jackhson, com sua linguagem pop, traga leitores e fãs para a grandiosidade e criatividade dos contos e mitos da Grécia mitológica. Se surgirem leitores das salas de cinema já terá sido uma grande conquista. Que assim seja, amem! (redundância, às vezes, é preciso).

Como cinéfilo devo dizer que o filme me agradou já que se propôs, e cumpriu, a produzir uma história interessante sobre amizade, a responsabilidade e o amor filial com alguns toques mágicos e seus efeitos especiais. Diversão garantida para as meninas que adoram galãzinho bonitinho com cabelo em desalinho e sucesso para os meninos com a possibilidade de algum romance “caliente” entre o mocinho Percy e a lindinha da Annabeth na continuação que certamente virá.  Verdadeiro cinema pipoca sem pretensão alguma em ser um trabalho de estudo ou debates acalorados sobre temas tão vastos e complexos como se poderia supor em assuntos desta natureza. Como ponto a favor da franquia Percy Jackhson a juventude já está falando em Zeus, Atena, Poseidon, Hades, Perséfone, Hermes e tantos outros deuses e conhecendo alguns mitos. O que já é para se comemorar. Tomara que este tipo de assunto faça bastante sucesso e que a moda pegue. Quem sabe outro produtor assuma o risco de produzir algo mais sério para um público mais interessado e, por conseqüência, mais pronto a entender todas as ramificações da mitologia.

Como amante da literatura mitológica grega foi uma decepção total. Por isso mesmo que iniciei este texto dizendo que tive emoções antagônicas ao terminar de assisti-lo. Esperava, sinceramente, que seria uma grande produção e um roteiro mais ao estilo do fabuloso Senhor dos Anéis. Imaginava, na minha inocência, que sendo possível produzir uma obra-prima como Senhor dos Anéis tendo por base apenas a obra de J.R.R. Tolkien, imagine o que se poderia fazer com a vasta literatura dos mitos, deuses, semideuses da cultura mitológica grega! Mas infelizmente não foi desta vez. Aliás, Hollywood está nos devendo, faz tempo, uma produção à altura desta cultura fascinante. Claro que vou ver todas as continuações que se fizerem sobre Percy Jackhson porque certamente serão filmes de aventuras com alguns toques mitológicos para se assistir comendo uma boa pipoca na manteiga. Melhor irmos assistindo a filmes que tratem deste assunto assim como quem não quer nada e, quem sabe um dia Hollywood nos brinde com uma produção à altura dos nossos desejos. Dos meus pelo menos.

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Cartaz do Filme

No filme “A flor do Meu Segredo” de Pedro Almodóvar a dualidade amor/verdade ou arte/consumo se fazem presente em todo o decorrer desta produção franco-espanhola de 1995. Magistralmente Almodóvar transforma seus personagens em porta-vozes desta dualidade, quando não ativistas (por vezes involuntários) desta gangorra que os coloca ora a favor do amor e da arte e em outras circunstâncias, a favor do consumismo fácil e da mentira como forma de proteção da individualidade.

Leo Macías (Marisa Paredes) é uma romancista de certo sucesso que faz a linha água-com-açúcar e assina suas obras com o pseudônimo de Amanda Gris. Leo está passando por uma crise existencial e está vendo seu casamento desmoronar razão pela qual está pensando em deixar de escrever romances fáceis para dedicar-se a literatura mais série e contundente. Para retratar esta fase, uma das cenas mostra a escritora calçando umas botas muito apertadas presente do seu marido e que não consegue descalçá-las por mais esforço que faça. Neste momento acredito que Leo Macías está, finalmente, caindo na real e que o mundo “fantasioso” em que vive e escreve a está tirando o foco da sua própria e cruel realidade.

Caminhando com os próprios pés e sem as tais botas que a apertam Leo Macias resolve partir para uma nova jornada como escritora e procura Angel (Juan Echanove) editor do jornal El Pais para escrever artigos para o jornal. E seu primeiro artigo é justamente uma crítica sobre a obra literária de Amanda Gris. Nada mais dúbio que isso! Depois vai a sua editora e diz que vai deixar de escrever romances açucarados e que deseja ser fiel a si mesma e as suas atuais angustias e sofrimentos. Deseja ser sincera com seu público e é tida como louca visto que faz sucesso e, segundo sua editora, o público não quer saber de realidade e sim de fantasia e finais felizes. Assim a realidade bate a porta de Amanda Gris e seu pseudônimo não é mais conveniente com a atual situação de mulher/esposa/escritora Leo Macías. Almodóvar mais uma vez se utiliza de sua fina ironia para fazer Angel utilizar o mesmo pseudônimo de Amanda Gris e assim continuar a ganhar dinheiro com romances cor-de-rosa e ajudar Leo a não sofrer ação judicial da sua editora. Realidade e fantasia misturando-se entre os personagens. Afinal, é preciso ganhar o pão nosso de cada dia e sucesso mesmo só quem escreve frivolidades e romances efêmeros.

Almodóvar, diferente de seus outros trabalhos, não se utiliza das cores exuberantes, personagens caricatos e a sua mistura de comédia escrachada com doses de dramas operísticos. Seus personagens são contidos, suas cores mais sóbrias e os sentimentos mais profundos. Marisa Paredes, mais uma vez, rouba a cena numa interpretação convincente da personalidade dúbia de seu personagem. Esta jornada em busca do “real” como pessoa e como escritora tornou Leo Macías uma mulher madura e, apesar do sofrimento, conseguiu superar seu alcoolismo e enfrentar a separação de seu grande amor. Interessante notar que um dos livros citado em A Flor do Meu Segredo de autoria de Amanda Gris intitulado “A Frigorífica” foi utilizado por Almodóvar no seu filme Volver onze anos depois.

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Tenho uma predileção por musicais e por Hair é uma paixão avassaladora. Principalmente é claro pelas interpretações musicais apresentadas no filme. Cada cena é de uma beleza fantástica e contagiante. Além é claro de retratar uma época de paz e amor e de certa dose de inocência. Éramos ingênuos naquela época e a rebeldia era mais uma forma de sair dos padrões comportamentais rudes dos nossos pais. Guerra, horários e tudo mais era caretice e só paz e amor eram o lema dos hippies anos 60. A famosa era de aquários. Uma música foi tema de muitas “viagens” e lema de uma juventude transviada.

Este vídeo é fantástico. Plasticidade, coreografia e música. Bárbaro.

Outra que gosto muito neste filme é este: Good Morning Starshine:

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Geralmente não gosto muito de filmes com crianças. Normalmente atores mirins fazem diálogos com ponto de interrogação a cada final de frase e isso me irrita. Sem contar as caras e bocas exageradas que geralmente fazem. Claro que existem algumas exceções. Não são muitas, mas existem. Sendo assim, foi com certo receio que comecei a assistir ao DVD “A Cidade das Crianças” uma produção francesa dirigida por Nicolas Bary. Como o próprio nome do filme indica, a película estaria repleta de crianças atuando e eu estava com receio de assistir. Para minha surpresa este receio durou pouco porque os atores simplesmente foram de um desempenho acima da média e assim foi possível apreciar, de bom grado, este espetáculo cinematográfico com atuações convincentes dos pequenos. Claro que a direção de arte ajudou (e muito) a transformar a cidade de Timpelbach e seus personagens em um encantador e mágico conto de fadas. O figurino dos personagens exageradamente caricatos, principalmente das crianças, deu um toque surreal interessante e ajudou muito no sentido de fazer do filme uma obra inesquecível.

Timpelbach é uma vila com crianças rebeldes que afrontam pais e professores e ninguém consegue dominá-los ou educá-los corretamente apesar de todas as tentativas neste sentido. Traquinagens de toda ordem são cometidas pelas ruas e, mesmo a professora mais durona do lugar, não consegue controlá-los nas suas artes e travessuras. A autoridade policial também não consegue dominá-los. Os pais, por outro lado, não impõem respeito e também não conseguem se fazer compreender e a desordem se estabelece. Para por fim a este caos, os adultos resolvem abandonar a cidade deixando as crianças sozinhas no intuito de ensinar-lhes, de forma definitiva, o valor da boa educação e da convivência pacífica. A princípio a gurizada aproveita esta “liberdade” para aprontar poucas e boas e a fazer o que lhes dá na telha sem interferência de qualquer autoridade ou adulto por perto. Mas o que parecia o melhor dos mundos logo se transforma em problemas e as soluções nem sempre condizem com as conseqüências. Pequenas decisões como preparar o almoço do dia, tomar banho e outras atividades rotineiras tornam-se difíceis visto que não existem regras ou alguém para dizer (ou fazer) o que precisa ser feito.

Nesta balbúrdia toda Oscar, o líder de uma gangue juvenil, vai transformando a vida de todos na vila em um inferno sem lei. Marianne, seu oposto, vai tentando, na medida do possível, administrar o restante das crianças num ambiente mais ordeiro e pacífico. Assim, a personalidade, o caráter e a habilidade de cada criança precisam ser colocados em prática para solucionar os problemas e conflitos. Uma metáfora interessante para analisarmos o comportamento adulto e os ensinamentos que estes transmitem aos seus filhos. Não é à toa que a violência de Oscar é a imagem da própria violência que sofre do pai. Ou o comportamento das demais crianças em relação as suas vivências familiares. O exemplo dos adultos (e por tabela seus pais) é que determina o comportamento das crianças e, ao verem-se sozinhas, nada mais fazem que repetir os mesmos erros comportamentais.

Ao afastarem-se da vila, os adultos também recebem sua lição de moral e voltam para casa transformados e, de certa forma, também educados para que seus comportamentos perante os filhos sejam diferentes e mais afetivos. As crianças também aprenderam que é preciso viver em harmonia dentro de parâmetros de respeitabilidade, lei e ordem. Brincar é ótimo mas é preciso ter um tempo para o estudo e para algumas responsabilidades. O exemplo sempre é mais educativo que meras palavras. Se existe alguma moral que o filme deixou diria que foi esta, sem sombra de dúvida.

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Impossível não se encantar com a Arte Naif com suas cores primárias, suas formas exageradas e disformes e sua perspectiva peculiar. Por ser uma obra fora dos padrões acadêmicos visto que o artista não é propriamente um sujeito que utiliza as várias escolas existentes dentro do padrão normalmente aceito pelos críticos e pintores que possuem estudo de artes plásticas.  A Arte Naif muitas vezes é confundido como Arte menor ou de pouco valor econômico ou artístico. Mas, por sua aceitação já virou uma escola dentro das artes plásticas e muitos “mestres” já se especializaram nesta área e são valorizados como tal.

Mesmo para quem não conhece a Arte Naif, depois de ver umas dezenas de telas, já é possível reconhecer o estilo dado à peculiaridade dos traços e cores do pintor Naif. A primeira vez que vi um quadro deste gênero de arte confesso que fiquei surpreso. Tive a impressão de estar admirando a exposição de trabalhos escolares feito por alguns adolescentes dado a simplicidade das cores (já que prevalecem as cores primárias sem qualquer nuances). Outro elemento que chamou minha atenção foram os traços das figuras humanas sempre de forma disforme ou desproporcionais, além é claro do “excesso” de elementos numa mesma tela. Com o tempo apaixonei-me pela Arte Naif e sempre que posso recorro à internet para apreciar esta arte magnífica e simples.

A palavra que me vem à mente quando vejo uma pintura Naif é Festa. Parece sempre retratar uma festa, um acontecimento público de confraternização de habitantes de uma vila campestre. Suas figuras humanas são sempre pessoas do campo ou, quando retratados na cidade, mesmo assim se tem uma “visão” ou “impressão” de que são imigrantes do campo. Ou pessoas de uma simplicidade comovente. No todo, apesar dos exageros, é de uma forma tão intensa que é impossível não ficar olhando o quadro por muito tampo para poder assimilar toda a “informação” existente na tela. E cada detalhe remete a outro e a “leitura” que se tem do todo depois é fantástica. O que parecia simplicidade ou falta de criatividade artística torna-se algo superior e mágico.

Poesia é outra palavra que me vem à mente quando vejo um quadro Naif. Natureza também. Apreciar uma pintura Naif é estar de bem com a vida e sentir que a simplicidade é comovente. Procure na Internet outros quadros desta “escola” e comova-se.

Barbara Rochlitz (Brazil), “Playing”, 2007, Oil on canvas, 40×59 cm

Barbara Rochlitz (Brazil), “Tropical Paradise”, 2007, Oil on canvas, 50×70 cm

Eduardo Ungar (Argentina), “A Feast of Flowers”, 2007, Acrylic on canvas, 60×60 cm

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Na época do lançamento do filme Titanic foi uma comoção geral aqui na locadora. Lembro que comprei 10 cópias do filme para atender a demanda que era muito grande antes mesmo do filme ser lançado em VHS. Manja VHS? Bons tempos aqueles que o termo pirataria, para as locadoras, era só um gênero cinematográfico! A fila de espera era enorme e as reservas idem. Todo mundo elogiava o filme e vários clientes chegaram, inclusive, a locar Titanic várias vezes. Só teve um cliente que chegou fulo da vida reclamando que tinha detestado o filme. Esta é a historinha de hoje.

O dia era uma quarta-feira com tempo nublado com uma garoa fina que caia insistentemente que por estas bandas chamamos de  “chuva de molhar bobo”. Porque você sai na rua sem guarda-chuva acreditando que não vai se molhar e de repente percebe que está encharcado até os ossos. Mas enfim… Era uma quarta-feira propícia para os negócios e o faturamento, certamente, seria ótimo. Aliás, todo dono de locadora torce para que chova numa quarta-feira, e torce mais ainda para chover nos fins de semana e feriados. Portanto, quando chove sem parar sábados, domingos e feriados podem rogar praga para todos os donos de locadoras do mundo porque, de alguma forma, este desejo coletivo de chuva deve ter alguma influência na meteorologia! Mas seguimos com a nossa história que é o que interessa. Como eu ia dizendo era uma quarta-feira com tempo nublado e uma garoa fina caia insistentemente e devia ser umas dez horas da manhã e a locadora estava vazia como sempre nesta hora. De repente surge um cliente com cara de poucos amigos e, já na porta da locadora, foi descarregando para cima de mim sua ira.

– Que filme horrível esse, credo! – Foi dizendo de pronto sem me dar a oportunidade de saber de que filme horrível estava se referindo.

Ao chegar ao balcão retirei as duas fitas VHS e vi tratar-se do filme Titanic. Fiquei surpreso com tanta ojeriza do cliente com este filme em particular. Afinal, tratava-se da maior receita de Hollywood e custado milhões de dólares para ser produzido e tendo sido premiado com inúmeros Oscars. Tanto sucesso fez que o Diretor James Cameron até declarava-se o “dono do mundo” em transmissão ao vivo pela TV. Fiquei curioso e logo comentei com o cliente na tentativa de acalmá-lo:

– Todo mundo adorou este filme e é campeão de locações na locadora!

– Pode ser o mais locado, mas é uma porcaria este filme. Retrucou de pronto.

Claro que eu não conseguia entender toda esta revolta. E já estava começando a ficar nervoso uma vez que nunca tinha visto um cliente tão bravo com um filme. Ainda mais se tratando de uma produção que era quase uma unanimidade mundial e tinha faturado milhões em bilheteria mundo a fora. Então fiz a pergunta esclarecedora:

– Porque tu não gostaste deste filme afinal?

– Este filme não tem pé nem cabeça. – Respondeu ele mais indignado ainda.

– Como assim não tem pé nem cabeça? – Perguntei confuso com tamanho disparate.

– Primeiro que o filme começa com o navio afundando e todo mundo caindo no mar e aquela desgraça toda e não explica o que aconteceu antes. E continuou sua ladainha já espumando pela boca:

– Nunca vi um filme que começasse deste jeito sem explicar nada e todo mundo morrendo. Até o Leonardo di Caprio morre no final.

– Como assim o filme começa com o Titanic afundando? – Perguntei já prevendo mais confusão ainda.

– Claro, de repente o navio começa a afundar e as pessoas a caírem no mar sem mais nem menos! – Responde ele esbaforido.

Então percebi o erro que ele havia cometido e comecei a rir descaradamente deixando o cliente mais indignado ainda. Por mais que eu tentasse falar alguma coisa não conseguia porque me deu um acesso de riso incontrolável ao imaginar a cena. E ele me olhando agora sim mais fulo da vida ainda. Depois de conseguir me acalmar perguntei de forma mais inocente possível:

– Tu percebeste que o filme é duplo?

– Como assim filme duplo? – Perguntou ele desconfiado.

– Sim. – Respondi. O filme é duplo. Tem a Fita Um com o início do filme e a Fita Dois com a continuação. Respondi contendo o riso.

– Eu vi que tinha duas fitas, mas achei que tu tinhas se enganado e me dado duas fitas iguais. – Falou sem convicção e percebendo a gafe que tinha cometido.

– Mas no estojo está escrito fita um e fita dois. – Falei com convicção.

Para não deixar dúvida e encerrar de vez aquela confusão toda lasquei, sem dó nem piedade, a explicação da gafe que ele havia praticado. Afinal, às vezes é preciso ser contundente para se fazer entender:

– O que aconteceu foi que tu colocaste a fita dois no vídeo-cassete e não percebeste o erro a tempo. Na realidade, tu assististe apenas a segunda parte do filme. E continuei a explicação olho no olho para não dar margem à dúvida:

– O que eu não entendo é como, tendo duas fitas VHS contigo, não tivesse a curiosidade de ver a fita número um. Ou seja, o início do filme.

Fui cruel eu sei. Mais cruel ainda foi ver a cara de desespero e confusão que o cliente fez. Fiquei com pena, claro. Ele ficou um tempo na minha frente tentando assimilar o erro e não parecer tão infantil como fora. Depois de algum tempo ele deu o sorriso mais “amarelo” que vi na vida e disse:

– Então está explicado. Mas não gostei do filme mesmo assim.

E saiu da locadora o mais rápido que pode. Ficou um tempo enorme sem aparecer na locadora na esperança que eu não me lembrasse mais da cara dele e de toda esta confusão. Claro que está que nunca me esqueci desta história. Mas confesso que não lembro mais da fisionomia dele.

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