Feeds:
Posts
Comentários

Archive for janeiro \29\UTC 2011

O povo americano não esquece a derrota na guerra do Vietnã. Inúmeros filmes foram produzidos tendo como pano de fundo esta batalha sangrenta e inútil.  Vidas foram ceifadas no front, traumas psicológicos ainda hoje são notícias na mídia. Não é à toa que ficamos sabendo que um soldado que participou da batalha entra num posto de gasolina ou restaurante e sai fuzilando meio mundo. Imagine o pesadelo destas pessoas vendo seus companheiros trucidados, feridos e escravizados pelo inimigo. Traumas para uma vida inteira. A nação mais poderosa do mundo saiu humilhada de uma guerra que tinha tudo para terminar em poucos meses. Na bagagem de volta trouxeram seres humanos feridos em seu orgulho e na memória cenas da mais pura violência. Entraram na guerra como heróis e saíram como farrapos humanos.

Michael Cimino fez um belo filme sobre a amizade e, acima de tudo, sobre pessoas simples que se encontram em situação de extrema dificuldade expostos a mais cruel das situações: Matar ou morrer. Mesmo sem um propósito claro ou um objetivo pessoal. Na guerra não existem vencedores. Só vencidos e mutilados. Cimino,  inteligentemente faz com que tivéssemos uma convivência duradoura com os personagens antes da derradeira batalha.  Para que tal identificação ocorresse, somos convidados a participar de suas vidas. Pessoas simples de uma pequena cidade onde a vida resume-se ao trabalho e a cerveja gelada ao final do expediente. Nos fins de semana caçada na floresta local serve como ponto de união entre os colegas. Na festa de casamento de um deles somos brindados com uma convivência pacífica e de alegria. Todos estão presentes e a confraternização e a amizade do grupo se fortalece. Chegamos mesmo a fazer parte desta união tal a forma como Michael Cimino realiza esta cerimônia. Sem presa. A cena deste casamento é longa, mas nos remete, sem sombra de dúvida, a união deste grupo e já nos prepara para a dimensão dos estragos que a guerra vai fazer na alma desta gente.

O momento da guerra passa rápido, mas impossível não se emocionar com a cena brutal da prisão do grupo de companheiros pelo inimigo. Sobreviver,  apesar da tortura física e psicológica. Encontrar um meio de fuga é preciso antes da morte eminente. O momento da roleta russa é de dar um frio na espinha. Os vietnamitas obrigam os soldados americanos a praticarem este jogo fatal para que possam apostar grandes somas no vencedor. Vidas humanas tratadas como animais. Tudo de uma atrocidade tremenda e sem qualquer propósito de heroísmo ou justificativa. Apesar da fuga, estes homens estarão marcados para sempre. Um perde as duas pernas no conflito; outro fica desorientado psicologicamente e acaba deserdando do exército e vai viver no submundo da jogatina,  colocando a própria vida em risco na roleta russa. Para quem já estava perdido e sem esperanças, enfrentar a morte a todo o momento talvez tenha sido a única forma de loucura possível.

Assim, homens simples e trabalhadores deixaram seus lares, suas famílias para enfrentar um inimigo numa terra desconhecida. Alguns voltaram com condecorações no peito. Outros ficaram na selva servindo de adubo em outra pátria. Alguns mutilados a receber a caridade de desconhecidos e outros, poucos heróis a tentar restabelecer o vínculo de amizade perdidos. Recomeçar é preciso, esquecer o passado mais difícil ainda.  Mas a vida continua e é preciso enfrentar novos inimigos no horizonte.

Christopher Walken em uma grande interpretação!

Uma cena antológica

Michael Cimino dirigiu uma das cenas mais tensas do cinema americano. A cena da roleta russa no filme “O Franco Atirador” é algo de deixar qualquer um com os nervos à flor da pele. Uma cena tensa, repleta de simbolismos e interpretação eficiente e contundente de Crhistopher Walken. Aliás, o elenco inteiro deste filme fez um trabalho fantástico de interpretação já tão fora de moda no cinema de efeitos especiais que hoje nos atiram na mão. Robert DeNiro, John Savage, John Cazele e Meryl Streep nos transportam para esta história sobre a guerra do Vietnã que explora as conseqüências morais e mentais da violência da guerra e todo o patriotismo manipulado politicamente em nome da amizade, honra e família.

Levados para um campo de prisioneiros na margem de um rio no Vietnã, Michael (Robert DeNiro) Steven (John Savage) e Nick (Christopher Walken) os guardas, para passarem o tempo, forçam os cativos a jogarem “Roleta Russa” enquanto fazem suas apostas. Os três amigos são forçados a jogar. São momentos tensos já que o jogo consiste em colocar apenas uma bala no tambor do revólver, apontar para a fronte e apertar o gatilho. Ninguém pode querer entrar num “jogo” de vida e morte desses. Mas é preciso fazer alguma coisa para escapar desta armadilha mortal.  Steven aponta a arma por sobre a cabeça, no que ela dispara e ele apenas fere-se levemente e por isso é punido, indo para uma gaiola debaixo d’água. Michael e Nick conspiram para matar os guardas e escaparem do inferno a que estão presos.

Anúncios

Read Full Post »

Em tempos de Big Brother e celebridades instantâneas da cultura inútil e fútil da nossa televisão brasileira é interessante perceber que o cinema consiga fazer uma crítica mordaz e destruidora destes ícones de vitrine. O filme O Último Minuto, dirigido Stephen Norrington faz uma crítica não só da cultura inútil ou das celebridades descartáveis do nosso dia-a-dia, mas principalmente a esta valorização que é dado a este lixo todo. Um dedo na nossa consciência sobre o tempo que desperdiçamos a idolatrar estes ídolos de efêmera permanência.

Billy Byrne (Max Beesley) é um cara que está em todas as mídias. Viaja pelos quatro cantos do planeta dando entrevistas, participando de inúmeras badalações. Enfim, é a “celebridade” do momento.  Um mega, super homem de sucesso. Invejado e paparicado por todos. Onde quer que vá é cercado por seguranças, fotógrafos e poderosos endinheirados prontos a aparecer ao seu lado. Mas a fábrica de ilustres não pode parar de produzir sempre novas e oportunas celebridades. De uma hora para outra Billy é descartado por um novo ícone do momento. Os holofotes precisam iluminar outra estrela em ascensão. A mídia precisa divulgar novos “talentos”. O mundo está sempre à procura de novos ídolos. Todos querem seus quinze minutos de fama e o espetáculo não pode parar. Esta ânsia toda por novidades acaba gerando celebridades de vazias idéias e pouquíssimos conteúdos. A cultura é descartável e o artista medíocre. Nada permanece. O efêmero é a regra e o produto de péssima qualidade.

Este personagem agora vai conhecer o outro lado. Sua energia agora será canalizada na sobrevivência com os anônimos. Será mais um humano nesta massa crescente de indivíduos a admirar os situados no topo da pirâmide dos famosos do momento.  Será igualmente um sujeito a esperar a morte vendo a vida passar sobre seus olhos. Nesta viagem rumo ao fundo do poço irá conhecer outros personagens neste fantástico mundo de ilusões. Mas aqui, no fundo desta miséria humana, a realidade é dura e selvagem. Sobreviver nem sempre é fácil e é preciso lutar ferozmente pelo alimento. Sim, porque os ilustres desconhecidos lutam somente por cama, mesa e banho. Isto quando possuem cama, mesa e podem se dar ao luxo de um bom e reconfortante banho.

Despejado de seu lar. Abandonado pela mulher e amigos. Sozinho e sem dinheiro no bolso,  Billy terá que lutar com outras armas para conseguir sobreviver nas escuras ruas de Londres. Nas esquinas da cidade encontra uma garota que está disposta a ajudá-lo a enfrentar esta nova jornada. Acaba morando com uma gangue de pivetes e ladrões nos porões de um teatro. Estranha ironia: Abaixo do palco de grandes espetáculos de tragédias humanas de mentira, vive, tragicamente, um bando de seres humanos desprezados, famintos e sem ilusões.  Como desgraça pouca é bobagem, Billy torna-se também um traficante de drogas.

Mas nem tudo está perdido neste trágico universo de seres humanos invisíveis. Após tanto sofrimento e ter chegado ao fundo do poço da desesperança e do abandono Billy resolve por um fim a esta jornada ao inferno. Vende toda sua “mercadoria”, ao novo traficante da zona. Retira os inúmeros piercing do rosto e parte rumo a uma nova vida.  Atrás de outros sonhos, porque talvez ele esteja no último minuto de sua vida e não pode perder a oportunidade de um novo recomeço. Sua energia retorna com força porque é preciso seguir um novo caminho e ser uma pessoa feliz. Longe dos holofotes e do mundo superficial das celebridades. Um ser humano simplesmente.

Read Full Post »

Não sei se ocorre com todo mundo, mas ao ouvir certos instrumentos musicais sou transportado para alguns lugares, independente da música que eles executam. Ou me vêem à mente, como uma fotografia, imagens que a eles associei (sabe-se lá por que critérios ou motivos) no decorrer do tempo. São impressões recorrentes… Não sei se estou me explicando bem, mas vou dar alguns exemplos para que entendam.

Gostaria de saber que imagens estes ou outros instrumentos musicais evocam em suas memórias afetivas.

Saxofone – Um sujeito tocando sax solitário em um apartamento com a luz da lua a entrar pela janela. Ou então as ruas desertas de uma grande metrópole com as luzes em neon a refletir nas poças d’àgua no asfalto. Solidão.


Violoncelo – Um lago tranqüilo com montanhas à volta e seu músico na ponte de madeira a executar suas graves notas. Por vezes a imagem de um músico a tocar seu instrumento à beira do grand canyon com aves a fazerem seus bailados no céu. Natureza.


 


Gaita ou Acordeom – Sempre me vem à mente a segunda guerra mundial e o som saindo de alguma caixa de som de um poste qualquer. Sempre música francesa, claro! Guerra.


 


Harpa – O som de um rio tranquilo que segue seu curso rumo ao mar… Diálogos de anjos (se anjos existem). Esotérico.

 

 

 

 



Trompa – Este instrumento sempre me trás lembrança da Inglaterra. Imagens de carruagens puxadas por seis cavalos e o bater de seus cascos nos paralelepípedos da calçada.  Monarquia.


 

 

 

 


Flauta – Um menino descalço a caminhar pela mata com borboletas e passarinhos a fazerem piruetas a sua volta. Ou algum ser mitológico com suas ninfas. Mitologia.

 


Flauta-de- Pã – Impossível não imaginar as Cordilheira dos Andes, claro! Países Andinos.

 

 

 

 



Gaita de Fole – Este é fácil… Escócia. Lembra também a Realeza Britânica.

 

 

 

 

 

 

 

Trompete – Algum bar noturno com seu burbinho e muita fumaça de cigarro no ar. Espetáculo.


 

 

 


Castanholas – Uma espanhola muito da gostosa com seu vestido vermelho e seios à mostra a provocar a platéia masculina enamorada. Sensualidade.

 

 

 


Pandeiro – Um negro brasileiro cheio de molejo e samba no pé. Samba.


 

 

 



Piano – Este instrumento é incrível e, dependendo da música que nele é executado, me trazem certas imagens. Mas geralmente são ambientes clássicos, gente bonita e perfumada. Pode ser também um bom concerto de jazz, blues, bossa nova, música pop com orquestra de acompanhamento. Boa Música.


 


Guitarra – Um bom show de rock and roll com multidões enlouquecidas com muita pirotecnia, refletores e gelo seco. Bons tempos de Paz e Amor anos 60. Hippie.


 


Violão – João Gilberto e seu revolucionário dedilhar da Bossa Nova. O violão sempre me remete a uma saudade que nem sempre sei explicar. Saudade.

 

 

 


Berimbau – Geralmente associo este instrumento a pratica de capoeira. A imagem que sempre me vem é um grupo de capoeirista a praticarem seu esporte no círculo de uma multidão que assiste, admirada, a este bailado exótico. Bahia.


 

 


Cuica – Aquele malandro das antigas do bairro da lapa no Rio de Janeiro. Camisa listrada, calça branca, sapato de duas cores e o inseparável chapéu a desfilar sua simpatia por onde passa. Malandro.


 

 


Cavaquinho – Evidentemente que o bom e velho chorinho brasileiro. Outra imagem do boêmio, só que neste caso o sujeito romântico que faz serenata para a amada sob a luz do luar. Chorinho.


 

 


Tímpano – Impossível não associar este instrumento aos primeiros acordes do poema sinfônico “Assim Falou Zaratustra” do compositor alemão Richard Strauss baseado na obra de Friedrich Nietzsche. Tempestade.



Violino – Claro que é inevitável lembrar-se das Quatro Estações de Vivaldi. Ou aquele encontro romântico à luz de velas com a pessoa amada.  Emoção.

Read Full Post »

O Gaúcho Imortal da Academia Brasileira de Letras

Que nosso “imortal” assim o permaneça por muitos e muitos anos para que assim possamos desfrutar de sua simpatia, inteligência e de sua incrível capacidade de nos emocionar com sua escrita de inquestionável qualidade literária reconhecida aqui e no exterior.

Moacyr Scliar é um sujeito que merece nossa energia positiva e rezo para que ele saia desta com mais força e disposição ainda e que venhamos a ter o prazer de ler outros textos de seu prodigioso cérebro criativo.

Salve, Scriar!!

Não existe homenagem melhor a um escritor que ler a sua obra e, acima de tudo, reverenciá-la e divulgá-la aos amigos para que uma corrente de solidariedade e pensamento positivo se forme para que nosso querido Moacyr Sclyar saia de mais esta provação. Neste sentido, volto a publicar meu comentário sobre o último livro que li deste genial escritor: Na Noite do Ventre, o Diamante.

Coleção Cinco Dedos de Prosa - O Dedo Anular por Moacyr Sclyar

Coube ao imortal da Academia Brasileira de Letras Moacyr Scliar escrever sobre o dedo anular para a coleção Cinco Dedos de Prosa publicado pela editora Objetiva. Na Noite do Ventre, o Diamante Scliar nos conta a incrível história de três séculos de um diamante que circulou pelo Brasil, Rússia e Holanda e de personagens que, de uma forma ou de outra, tiveram contato com esta pedra preciosa. Personagens históricos como o Padre Antônio Vieira, Freud, Trotsky e Spinoza circulam pelas páginas do livro assim como anônimos interessantes com suas histórias mirabolantes em companhia deste diamante encontrado em uma mina no interior de Minas Gerais no lugar que ficou conhecido como Arraial da Cabra Branca.

A história inicia em 1662, no Brasil em uma vila no interior de Minas Gerais conhecida por Arraial da Cabra Branca fundada por Álvaro Góis criador de cabras famosas por seu leite, que tudo mundo acreditava, fosse milagroso. Neste lugar a índia Imoti encontra  diamantes que acabam caindo nas mãos de Gaspar Mendes um cristão-novo fugitivo da Inquisição que acaba escapando para Amsterdã. Na Holanda onde encomenda ao seu sobrinho Rafael Fonseca que faça a lapidação das pedras. Rafael vive em companhia de Spinoza e com ele tem diálogos para entender suas dúvidas existências e compreender o pensamento filosófico do grande homem. Diogo Moireno, outro discípulo de Spinoza, rouba uma das pedras e, com consciência pesada pelo ato, resolve seguir para Jerusalém para reconstruir o templo de Salomão e se redimir do pecado. Todavia acaba ficando na Rússia e, muito doente, não consegue seguir sua jornada e suplica ao judeu que o acolhe  que faça com que o tal diamante retorne ao seu lugar de origem, ou seja, o Brasil. Durante gerações este diamante fez parte desta família judia que o passava de geração a geração agora como adorno de um anel.

Em 1917, com a revolução Russa, Esther precisa fugir com sua família do país visto que os judeus são perseguidos pelo novo regime. Para não perder o diamante para saqueadores obriga um de seus filhos a engolir a pedra. No navio que segue para o Brasil Gregório, filho de Esther, não consegue “eliminar” o diamante. Em terras brasileiras é levado ao hospital para que possa ser operado e a pedra preciosa retirada do seu estômago. Escapa desta e de outras tentativas de cirurgias deixando a família em maus lençóis visto que não possuem dinheiro para sustento. Com os anos passando a família vai se habituando ao novo país e sobrevivendo com dificuldades sem conseguir recuperar o diamante. Com a morte da mãe e as rusgas com o irmão que busca na justiça a cirurgia para recuperar o diamante, Gregório resolve seguir para a Aldeia da Cabra Branca para devolver a tal pedra a sua origem. Na mina conhece a índia Maruca, descendente da longínqua Imoti, onde, por fim, o diamante encontra seu destino.

Esta narrativa comove pelos aspectos humanos envolvidos e pelos personagens e situações históricas que circulam pelas páginas deste romance. Moacyr Scliar, mais uma vez, nos arrebata com sua criatividade ao nos apresentar este diamante que representa o signo do poder ditando e destruindo destinos. Leitura das mais agradáveis.

Read Full Post »

Escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore o filme Baarìa – A Porta do Vento acompanha quatro décadas de história de Baarìa uma pequena localidade siciliana em que os moradores do local se referem, em dialeto, a cidade de Bagheria. Para quem não viu o mais novo trabalho de Tornatore um aviso: Não tente entender os personagens que aparecem no decorrer da narrativa porque eles entram e saem de cena em uma velocidade espantosa. Aliás, o filme é um grande painel histórico, político e social desta cidade siciliana e, como tal, relega a segundo plano as histórias pessoais de seus moradores. Inúmeros personagens surgem a todo o momento e suas motivações, complexidades psicológicas, emocionais e tudo mais vão se perdendo ao longo de quase três horas de duração do filme. Fica difícil, em certos momentos, saber quem é quem e as razões de serem retratados nesta ou naquela cena. O espectador fica com a impressão de estar assistindo a uma retrospectiva histórica de um povo e seu país em que os acontecimentos ali retratados ele, o espectador, não possui familiaridade ou não a conhece de todo. Para entender Baarìa – A Porta do Vento na sua complexidade, seria necessário ter um pouco de conhecimento prévio da história da Itália e de seu povo. Só assim, com conhecimento de causa, é que é possível assimilar e apreciar, como se deve, os acontecimentos ocorridos em mais de 40 anos nesta pequena localidade da Sicilia.

Com certeza este filme é uma daquelas produções em que é preciso rever e rever várias vezes para se poder entender e, principalmente, apreciar toda a grandiosidade da obra. Cada vez que o espectador assistir a Baarìa – A Porta do Vento vai maravilhar-se com esta ou aquela cena, esta ou aquela passagem que passou despercebida e emocionar-se com este ou aquele momento retratado em tela. Não pense que estou só a fazer uma crítica ao trabalho de Tornatore. Longe disso! Só gostaria que o leitor deste texto tivesse um pouco mais de paciência com o roteiro e a visão do diretor e se deixasse levar pela beleza plástica das cenas (e são muitas cenas…); apreciasse igualmente o incrível trabalho de reconstituição de época; maravilhar-se com os figurinos e cenários feitos com maestria e é claro emocionar-se, às lágrimas, com trilha sonora composta por Ennio Morricone. Um pequeno adendo: A música de Ennio Morricone faz toda a diferença e não se lembrar de Era “Uma Vez na América” de Sérgio Leone foi impossível já que Morricone também foi o responsável pela trilha sonora deste filme. Ficar indiferente a toda aquele gestual característico do povo italiano e ao seu belo idioma igualmente impossível o que torna esta obra imperdível. Sendo assim, deixe-se levar pelas belas imagens, pela estupenda trilha sonora e depois reveja o filme uma segunda vez para poder entendê-lo melhor no que diz respeito as suas motivações e a história que realmente Tornatore queria contar.

A Família dos Torrenuova

Para não ficar divagando muito devo dizer que foi possível acompanhar a história de Peppino Torrenuova (Francesco Scianna) desde sua infância como um menino problemático nos anos 30 que percorria as ruas de sua cidade a puxar uma vaca e a vender seu leite de porta em porta e sua dura experiência de guerra nos anos 40 sob o fascismo. Foi possível também assistir seu romance proibido com a bela Mannina (Margareth Made) e suas artimanhas para finalmente conquistar e casar com a mulher amada. Juntos passam por privações, sofrimentos e alegrias… Finalmente chegar à maturidade, à vida política e os anos de sucesso na militância no Partido Comunista Italiano e a criação dos seus três filhos. As passagens de tempo não são lineares e acontecem durante todo o filme, indo e voltando na história dos Torrenuova o que dificulta acompanhar as trajetórias dos inúmeros personagens que surgem a todo o momento e a entender algumas passagens históricas da Itália e seu povo. Todavia, é possível focar a atenção na família de Peppino e Mannina e assim não ficar muito perdido na trama. Acompanhar o desenvolvimento da cidade de Baarìa de cidade tipicamente agrícola em uma grande metrópole com seu caos no trânsito foi interessante. Bem como ver o surgimento dos partidos fascistas, socialistas e comunistas (em qual ordem se deram não me pergunte…) e toda a questão política italiana e a influência da máfia nos destinos daquela gente também foi possível acompanhar apesar de toda a caótica edição.  Enfim é um filme imperdível para quem gosta de filmes com fundo histórico e social emoldurado numa bela trilha sonora e imagens impactantes. Se você não entender muita coisa desta colcha de retalhos que é o enredo não se preocupe. Até porque, Giuseppe Tornatore não facilitou muito a vida de quem não conhece a história do povo italiano. Se você entender melhor esta história me escreva porque ainda preciso rever muitas vezes Baarìa – A Porta do Vento para entendê-lo completamente. Uma coisa é certa: As imagens (em turbilhão) e a trilha sonora são belíssimas e valem o valor da locação.

A saga de Pepino Torrenuova

 

Read Full Post »

Dizem que é preciso matar um leão por dia para sobreviver nos dias de hoje. Desemprego, pobreza e falta de perspectiva de futuro. Agora imagine esta situação no final da década de vinte. Mais precisamente o fatídico ano de 1929 com a queda da bolsa de valores nos Estados Unidos da América em que fortunas desceram pelo ralo. O desemprego na América foi estratosféricos e na fila da sopa e dos guichês de auxilio financeiro federal muitos nobres e ricos, agora na miséria, se acotovelavam com a população em geral por um prato de comida e uns poucos trocados para a dura sobrevivência. Claro que a queda na bolsa teve reflexos no mundo inteiro. Não se falava em globalização naquele tempo, mas a miséria se fez sentir em vários países.

Entre a anônima população um homem sentiu também na pele a avassaladora crise financeira: Jim Braddock (Russel Crowe) um prodígio do boxe que fora obrigado a aposentar-se prematuramente devido a uma série de derrotas no ringue. Sem participar de nenhuma luta e na miséria total acaba ele também, na fila dos desempregados a viver da ajuda federal e de pequenos bicos. Não sente vergonha sequer de pedir dinheiro aos seus amigos e colegas para sustentar sua família. Fome, miséria, frio e indiferença não foram suficientes para minar o caráter e a personalidade deste homem. Íntegro e honesto não se deixou abalar e no portão de acesso ao cais do porto procurava um trabalho de estivador. Nem sempre conseguia o emprego já que a concorrência era grande.  Defendeu bravamente sua família e não permitiu que seus filhos fossem criados por outras pessoas ou parentes. Lutou, com todas as suas forças, para criar sua família e mantê-los sob sua proteção.

A Família de Cinderella Man

Um dia, a sorte bate na porta de Jim. Devido ao cancelamento de última hora ele é escalado para enfrentar o segundo pugilista na disputa do título mundial. Os tempos difíceis fazendo força na estiva e a miséria a espreitar sua mesa deu forças e motivação, mais do que suficiente, para que aceitasse o enorme desafio. Com forças renovadas pelo trabalho braçal e com tais lembranças deram a este homem razão para que lutasse, não só pelo amor ao esporte, mas como meio de uma sobrevivência digna e honesta. Ganhar dinheiro naquele momento era uma questão de vida ou morte.

Vitória após vitória, Jim volta ao pódio e a consagração de um povo sem esperança. Acaba virando um símbolo de superação e de luta e ganha, por isso mesmo, o apelido de Cinderella Man. As coisas começam a mudar e é possível, agora, comer melhor e colocar mais lenha na lareira. Volta para a fila do desempregado, mas não para pedir ajuda ao governo, mas para devolver todo o dinheiro que havia ganhado. Poucos tiveram esta visão social. Todavia, um inimigo fatal despontava no horizonte. Mas ele não teme a luta e prepara-se para enfrentar seu maior obstáculo: Max Baer atual campeão mundial de pesos pesados, que já matou dois adversários no ringue. Vencer neste caso,  é permanecer vivo e sustentar sua família. Sua mulher, Mae Braddock

(Renée Zeelweger) sabe do grande desafio e implora para que ele desista da luta. Mas Jim costuma dizer,  entre outras palavras, que no Box ele sabe a quem enfrentar e com quem lutar, porque conhece o inimigo. Na miséria e no desemprego, ele é invisível, por isso mesmo difícil de vencer.

Mais uma vez Rusell Crowe mostrou ser um excelente ator dramático e teve um desempenho brilhante. O diretor Ron Howard conseguiu dar veracidade às cenas de luta e contou de maneira competente a história deste ícone americano. Mostrou-nos a história de um herói de seu tempo que lutou dignamente para sobreviver. Direção de arte no capricho retratando os conturbados anos trinta. Vale à pena conferir esta comovente história e torcer para que consiga abocanhar a desejada estatueta dourada na próxima edição do Oscar 2006.

Read Full Post »

Um Filme Comovente

Por uma cruel ironia era conhecida por todos como preciosa. Claireece Preciosa Jones foi assim batizada por sua mãe porque era assim que esta mulher queria que sua filha fosse conhecida e, certamente, era assim que a considerava quando seu bebê nasceu. Uma criança que tem no próprio nome um adjetivo tão comovente deveria ser tratada com todo amor e carinho por seus pais.  Deveria… Mas não foi o que aconteceu com Claireece “Preciosa” Jones que jamais conheceu (ou sentiu) o significado que seu nome transmitia. Teve uma infância sofrida por inúmeros abusos sexuais praticados pelo pai com a conivência da mãe; uma adolescência ainda mais cruel pelo tratamento de escrava que a própria genitora impunha e, acima de tudo, a grande solidão de viver cercada por tanto ódio, descaso e sofrimento. Preciosa jamais usufruiu, em sua curta existência, a beleza do próprio nome. Não até o momento em que “aprendeu” a rebelar-se contra este tratamento desumano praticado por seus pais.

Preciosa tinha auto-estima em grau zero. Sua realidade em preto-e-branco era por demais cruel para permitir-lhe ser feliz. Aliás, felicidade era uma palavra que não constava em seu dicionário. Até porque, semi-analfabeta, não tinha ciência da própria ignorância e da sua condição de ser humano. Não saberia mesmo soletrar felicidade, quanto mais senti-la e muito menos ter consciência que todo ser humano merece ser feliz. Em seus sonhos sentia-se poderosa, amada por seu homem branco (aqui uma alusão ao preconceito e a sua dura realidade de negra/mulher/gorda) rodeada de muita cor e luxo. Um dia Preciosa aprendeu que também tinha lá seus direitos e que igualmente mereceria sentir a tal felicidade e vivenciá-la plenamente além de seus delírios cor-de-rosa.

Uma atuação bastante convincente de Gabourey Sidibe na pele da Jovem Preciosa

Interessante perceber que o diretor Lee Daniels neste brilhante filme Preciosa – Uma História de Esperança nos mostra o caminho percorrido por Preciosa para sair de sua prisão domiciliar e deixar de sofrer as humilhações e maus tratos da mãe. Quando era uma menina que não tinha “conhecimento” e era uma completa ignorante no sentindo mais abrangente da palavra aceitou seu destino resignadamente. Até porque, não tinha parâmetros para comparar com sua triste situação. Acreditava, sinceramente, que o mundo era assim mesmo, que sua vida deveria igualmente ser de sofrimento e dor. Normal para uma mulher negra, gorda e mãe de duas crianças geradas com o próprio pai. Quando percebeu que a “palavra” (no caso o conhecimento) a libertaria de sua sina correu atrás de sua liberdade e resolveu cortar o cordão umbilical e buscar outras palavras para o seu dicionário. Quando finalmente entende sua condição de ser humano e o conhecimento a alcança sua auto-estima melhora, sua confiança em si própria aumenta sente-se então forte para enfrentar a mãe dominadora. Na sala de aula aprende muito mais que soletrar e entender os significados das palavras ela os escreve em seu diário e, a partir desta arte de escrever exorciza seus medos, angústias e esperanças. Ao ser reconhecida como uma boa aluna percebe que está no caminho certo e, a partir deste momento, sente-se forte para recomeçar uma nova vida e finalmente ser feliz.

Interpretação visceral e comovente de Mo"Nique como a mãe vilã

A interpretação de Gabourey Sidibe como Preciosa é convincente e comovente. Seu olhar distante e sua aparente apatia perante o mundo nos mostram uma pessoa sofrida que usa estes artifícios como escudo para proteger-se e manter-se incógnita. Mas quem rouba a cena mesmo é a atriz Mo’Nique como a vilã mãe da protagonista. Uma interpretação visceral, incrivelmente comovente e assustadoramente real. Não tem quem não sinta uma raiva atroz por esta mãe e não tenha vontade de esganá-la na primeira oportunidade. Vale cada cena em que contracena com Gabourey. Não pense tratar-se de mais um daqueles filmes cheios de clichês com heroínas sofridas que dão a volta por cima e coisa e tal. Não é um filme fácil e simplista a este extremo. O realismo é chocante, as interpretações convincentes e a direção competente. Um filme para quem realmente quer aprender um pouco sobre esperança e como conquistar a felicidade. Preciosa desejava ser uma pessoa que, além de ter esta palavra em seu próprio nome, ser um ser uma mulher realmente Preciosa. Provavelmente foi com seus filhos…

Read Full Post »

Older Posts »