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Archive for fevereiro \28\UTC 2013

Logo no início do filme Amor, dirigido por Michael Haneke, senti que estava prestes a assistir o desenrolar de um drama humano. Demasiadamente humano. Não me refiro a primeira cena, quando os bombeiros invadem um apartamento e encontram uma mulher estendida na cama coberta de flores e o corpo em franca decomposição. Esta cena é também emblemática. Mas não foi esta a cena que ficou na minha cabeça.

A cena que me marcou foi mais sutil e nada chocante. Após um início tão trágico e definitivo, a cena muda para uma câmara estática que foca um público aguardando o início do espetáculo em um teatro.  Passam-se alguns minutos e a cena não muda, como a dar ao espectador um tempo de reflexão e prepara-lo para o que está por vir.  A partir deste momento, percebi que o tempo será outro, a respiração será outra e, atento, me preparei para o que viria.

Enquanto procurava um rosto familiar na platéia que me encarava, percebi que eu mesmo seria um partícipe (ou cúmplice) desta história.  Muito mais que um mero voyeur da vida alheia, seria instigado a pensar nas minhas escolhas futuras. Afinal, esta história poderia ser a minha ou a de qualquer um de nós nestas trágicas circunstâncias.

O diretor resolveu dar um claro aviso ao espectador que os dramas retratados nas próximas duas horas seriam histórias comuns a todos e que seríamos testemunhas (e cúmplices) destas relações humanas e que, em um momento crucial de nossas vidas, seremos obrigados a também fazermos nossas próprias escolhas.

Uma cena que, pelo singelo do momento, coloca-nos frente a frente com as mesmas dúvidas, anseios, angústias e nos permite um tempo de pensarmos qual decisão tomaríamos diante de tal dilema. Mas todo este entendimento filosófico (errado ou não, afinal cada um entende um filme a sua maneira e com as suas experiências de vida) adquiri ao final deste filme fantástico. Mas a cena ficou e o recado me foi dado…

Quatro parágrafos para retratar uma cena! Meu Deus, não foi à toa que este filme me cativou! Um aviso para quem ainda não teve o privilégio de acompanhar esta história no cinema: Esqueça o tempo. Permita-se observar o ambiente deste lar de idosos… Veja os quadros na parede… Veja a vida fluir pelas fotografias deste casal unido por décadas…  Respire com calma e deixe o tempo fluir sem presa. Só assim você vai entender o momento certo para ter a sua resposta para a grande pergunta que fica durante toda a projeção do filme: O que eu faria no lugar de Georges? Amar tem suas conseqüências, claro. E Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant) tiveram uma vida inteira para desfrutar e viver intensamente este sentimento.

Viver com a pessoa amada uma vida inteira e ter que fazer a escolha dolorosa de Georges não deve ser nada fácil. Mas amar é muito mais que passar momentos felizes e prazerosos juntos. É preciso também desprendimento, coragem, afeto, amor incondicional e uma grande dose de respeito ao ser amado. Afinal, como deve ter pensado Georges, é a vida sofrida da mulher amada que conta, não a própria.

Um filme arrebatador pelo tema tratado, pela forma sincera e respeitosa como os roteiristas desenvolveram a trama  sem abusar dos clichês e da lágrima fácil da platéia. Um filme que fica no consciente e no inconsciente por muito tempo e, com certeza, ficou marcado na minha memória afetiva.

Vale salientar também as grandes interpretações de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant que levam o filme, literalmente, nas costas. Uma produção de mais de duas horas com somente duas pessoas em cena na grande maioria das vezes é de uma coragem nos dias de hoje de um cinema cada vez mais visual e rápido. Mas como não se emocionar ao andar por aquele apartamento e não sorrir (sim, é possível sorrir com esta tragédia) no momento em que Anne brinca de correr com sua cadeira de rodas?

Enfim, quem não viu que veja… Eu vou rever com certeza.

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Foi com raro prazer que devorei as páginas do livro Neptuno, de Letícia Wierzchowski. Cada parágrafo uma sensação diferente; cada capítulo possibilidades mil em relatos de suspense, erotismo e sangue. Sem contar aquela cumplicidade narrador/leitor que me fisgava a cada observação em que era instigado a pensar e a tentar responder as questões morais, éticas e porque não dizer, sexuais do jovem M.

Como culpar o ciumento M pelo acontecido? Como não apaixonar-se perdidamente (personagem e eu próprio) pela ninfeta June? Esta Lolita tupiniquim tinha curvas, ideias e desejos perigosos demais para ficarem imunes a uma paixão avassaladora e possessiva.

June se apresenta aos olhos do leitor pela narrativa sempre explícita e comovente do advogado Key, que por sua vez a vê (e sonha e excita-se) pela descrição do possessivo M ao contar-lhe o que se passou naqueles dias a beira mar e nos galpões desertos da cidade de Neptuno.

Também não é pra menos que esta ninfomaníaca (?!) tenha despertado desejos irracionais de jovens, adultos, solteiros e casados. Nem o próprio advogado Key (que nos relata aqueles dias) saiu imune dos acontecimentos. Claro que o leitor também irá cair nas artimanhas luxuriantes da jovem de lábios carnudos e prever (infelizmente) seu trágico fim.

Não é pra menos. Veja a descrição da bela jovem e saia ileso desta leitura se puder:

“June tinha sardas, minúsculas sardas douradas que pareciam pó de ouro. A boca era carnuda, cor de romã (…). June era uma menina crescida demais. Tinha um corpo delgado, de onde brotavam promessas. Ela andava suave e cadenciadamente. E tinha aquelas pernas longas, perfeitamente lisas…”.

Interessante também foi acompanhar o desenrolar deste trágico acontecimento na vida das outras pessoas citadas no romance. Nada será como antes no futuro destas pessoas que, de uma forma ou de outra, também foram responsáveis pelos destinos (passado, presente e futuro) destes jovens amantes.

O livro é repleto de referências literárias que ajudam o leitor a ter uma visão mais exata do charme fatal de June. Truque poderoso também para fisgar de vez o leitor ávido pelo fim da trama. A narrativa de Letícia é primorosa pela poesia e pela forma cativante que nos leva até a última página com o sangue a fervilhar na veia.

Não querendo tirar o prazer de quem ainda não leu este romance, mas devo dizer que Nabokov fez escola e agora podemos dizer que temos a nossa Lolita literária.

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As Aventuras de Pi é um filme interessante pelas várias questões filosóficas, religiosas e espirituais levantadas no roteiro e magistralmente dirigida por Ang Lee.

As imagens impressionam pela beleza plástica e a grandiosidade das cenas em que o jovem Pi tem seus devaneios em alto mar. Uma verdadeira aventura que vai, com certeza, comover muita gente e atrair fãs para a obra literária de Yann Martel.

O sincretismo religioso do jovem Pi e sua relação com os animais (representado por todos nós) é um tema mais complexo que o filme retrata. De qualquer forma, é importante ressaltar este relacionamento tumultuoso e este jogo de poder homem/animal existente no convívio, cada vez mais predatório. De nossa parte, diga-se.

É possível uma convivência pacífica? É possível acreditar em todas as religiões e não pertencer a nenhuma delas? É possível aceitar as diferenças e respeitar o próximo – animais racionais ou não?

Estas são questões que o jovem Pi teve que responder (ou não) na sua jornada de mais de 200 dias à deriva no oceano pacífico com o tigre de bengala chamado Richard Parker.

Com temas tão elevados a serem analisados e respondidos, o filme consegue cativar e manter o interesse do espectador até o final. Se foi ou não uma visão lúdica do jovem Pi as suas mirabolantes aventuras não saberemos. Cada um que escolha o final que melhor lhe convém e acredita de acordo com a sua espiritualidade e realidades de vida.

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O Voo, dirigido por Robert Zemeckis e estrelado por Denzel Washington é um daqueles filmes que parece que vai levantar voo e depois aterriza num dramalhão sem fim.

Olha que eu gosto de Dramas, mas Denzel não me convenceu. Ah sim, também gosto da atuação de Denzel Washington. Mas neste filme… sei não, alguma coisa não estava afinada e me perturbava aquele diálogo todo. Quando Don Cheadle apareceu em cena eu pensei: agora vai! Não foi…

Atuações boas dos atores de apoio. Porque este filme não me agradou? Vou pensar sobre isso e escrevo oportunamente. Ou não (risos).

 

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Ler Feia, de Constance Briscoe não foi uma tarefa fácil. Claro que eu sabia, de antemão, que a história ali narrada seria osso duro de roer. Não sabia (ou não queria acreditar) que seria tão cruel a vida da menina Clare. Que, aliás não se chamava Clare ou Claire. Só foi saber o nome verdadeiro quando adulta!

Além das surras homéricas, humilhações de gelar o sangue e toda sorte de privações, a mãe (mãe?!) escondeu da própria filha sua identidade como ser humano e individual.

A narrativa, apesar da dor visceral, flui de forma ágil e, em nenhum momento, a autora se coloca como vítima. Muito antes pelo contrário. Como teve a infância e a juventude sempre acreditando que era mesmo um ser insignificante e inútil, acreditava que o tratamento recebido pela mãe tinha algum motivo causado pela sua própria existência.

Clare era mijona, feia, beiçuda, nariguda e careca. Era natural (?!) receber o tratamento que recebia da mãe. Tanto sofrimento e dor só podia ser mesmo o tratamento que merecia. E isso é o que mais me causou espanto e indignação! Como uma criança pode chegar a este ponto de acreditar num absurdo destes?

Com  o passar do tempo Clare percebeu que, talvez, fosse a própria mãe que tinha problemas psicológicos, patológicos e uma grande dose de psicopata naquele cérebro de louca varrida.

Ler as agressões psicológicas que a menina sofria pelos lábios da mãe é de deixar qualquer um com o estômago revoltado e o sangue quente.  Cada parágrafo, cada página, cada capítulo era uma sucessão do que um cérebro humano (demasiadamente humano)  é capaz de dizer (e fazer) com a própria filha. Esta mulher não tinha a menor noção do que fosse amor, carinho e afeto.

Apesar de tudo, um livro otimista e, felizmente, um final em que é possível acreditar no sonho e a obrigação de lutar para consegui-lo. Sorte que Constance nunca desistiu de seus sonhos e da sua capacidade de realizá-lo.

Viveu para vingar a mãe? Sinceramente não acredito. O livro foi seu grito de liberdade e, como ela própria diz, a mãe não merecia seu silêncio. O cruel de tudo isso é sabermos que esta violência (física e psicológica) está tão perto de nós nestes dias de carnaval e alegrias no ar.

Que este livro possa inspirar outras meninas (e meninos) a não se submeterem a este tratamento desumano e a acreditarem que não são – nem de longe – responsáveis por receberem este tratamento e a passarem suas infâncias e adolescências na dor e no sofrimento.

A vitória de vida de Constante, foi, com certeza, a grande vingança que ela pode fazer contra aquela mulher que a pariu. Porque de mãe, aquela megera, não tinha nada.

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Argo é um daqueles filmes “baseado em fatos reais” que não compromete muito e não é nada complicado. Apesar do tema e das intrigas internacionais retratadas na tela, o roteirista Chris Terrio se preocupou em tornar a trama de fácil compreensão para o grande público não familiarizado com estas questões políticas.

Bem Afleck, apesar de continuar a ser um grande canastrão como ator, se saiu bem com a batuta de diretor. Soube manter o clima de tensão com algumas pitadas de humor. Aliás, aquele clima final ficou exagerada, mas tudo bem… afinal o mocinho – desde que o cinema é cinema – sempre ganha no último segundo.

Interessante é acompanhar os créditos finais para confirmar que a história realmente é baseada em fatos reais. Sim, porque ninguém acreditaria nesta mirabolante trama de um filme falso para tirar americanos do Irã.

Não aposto minhas fichas para o Oscar.

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Quem, na juventude, não teve anseios de querer mudar o mundo? Quem não sonhava, em sonolentas madrugadas, a empunhar bandeiras revolucionárias com vigor e coragem? Nas décadas de 10… 20… 30 muitos jovens, com certeza, tinham esta visão de serem os heróis da pátria e salvadores do mundo. Afinal, eram anos conturbados (revolução Russa, comunismo em ascensão, queda da bolsa, Getúlio no poder, etc…) e o mundo transformava-se e multidões de jovens e inconformados saiam às ruas (e eram perseguidas, mortas ou sumiam da vista de familiares e amigos) para protestar e revolucionar conceitos e comportamentos. Anos de chumbo e de transformação.

Estes pensamentos utópicos começaram a fervilhar na cabeça do jovem Valdo nos idos anos 30. Ser filho de um humilde capataz naqueles tempos não era nada fácil. Após ver o pai ser humilhado pelo dono das terras ele tinha um só pensamento: Vingar-se da humilhação e acabar com o poder econômico e dar ao proletariado (palavra que só foi conhecer bem depois através da leitura de livros comunistas) o comando dos destinos do mundo. Grande utopia, claro. O destino tinha outros planos para este jovem idealista…

Por ironia do destino (e a sempre genialidade e veia cômica de Scliar) o jovem Valdo – comunista ferrenho e grande leitor de Marx e Lênin – foi trabalhar no lugar mais improvável possível: Na construção do Cristo Redentor! Pior castigo para um comunista impossível.

Apesar de tudo, Eu vos abraço, milhões de Moacyr Scliar não é um livro pessimista. Longe disso. A realidade que o cotidiano impõe ao herói da história (e a nós, seus leitores) é que é dura. É preciso comer, beber, ter onde morar, o que vestir, etc… e isto são comuns a qualquer mortal (comunista ou burguês). Claro que é preciso sonhar, ter objetivos na vida. E Valdo os tem de sobra através da sua literatura esquerdista e seus sonhos de salvador da pátria e defensor de fracos e oprimidos.

Uma narrativa que empolga e leva o leitor a procurar entender as razões das escolhas de Valdo na sua jornada a se tornar um comunista (ou não). Afinal, a vida é feita de escolhas e Moacyr Scliar vai desfiando sua genialidade em cada página  com seus  personagens reais e imaginários e em histórias reais ou ficcionais. Aliás, a ambientação histórica é quase um personagem deste livro que se lê de um fôlego só.

Ao chegar à última página, lembrei da composição de Elis Regina:  “Como Nossos Pais”  que, entre outras verdades, escreve:

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais…

Meus amigos, a realidade, às vezes, é cruel e é preciso seguir em frente e engolir alguns sapos (ou deixar alguns ideais pelo caminho). Mas o que nos resta fazer? Sigamos em frente…

Talvez a felicidade esteja em outro lugar. Em outro sonho.

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