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Archive for maio \16\UTC 2013

Gosto muito de filmes que coloquem “minhocas na minha cabeça” e que me deixem com o questionamento, será que entendi direito? A Caça, dirigido por Thomas Vinterberg encaixou-se perfeitamente nesta categoria de filmes. Muito longe de ser um suspense meia boca, revelou-se um grande filme dramático com inúmeras perspectivas de entendimento e brilhantemente interpretado por uma trupe de atores dos mais afinados que vi recentemente.

Sou muito atento às “dicas” que os roteiristas vão deixando nas primeiras cenas de suas histórias para dar ao espectador uma amostra do que será tratado no decorrer da trama. Com esta produção não foi diferente. Na cena em que o professor Lucas (Mads Mikkelsen) caminha, de mãos dadas, com a menina Klara com o cuidado de seguir “a linha” indicada na estrada, já percebi o tema (ou os temas) que o filme abordaria. O ser humano sempre segue linhas de comportamento na vida: moral, ética, social, cultural, etc… etc… A maioria, pelo menos. Afinal, somos seres sociais e é preciso seguir na linha para mantermos nossa condição de seres racionais. Outros extrapolam os limites e saem da linha para viverem nos presídios mundo a fora.

Com o passar dos minutos (e o desenrolar da história), a perspectiva de “andar ou não na linha” perde o significado quando Lucas, que sempre fora considerado por todos um cara legal, trabalhador, íntegro e um sujeito acima de qualquer suspeita cai na armadilha de se ver envolvido num jogo perverso de ser culpado por pedofilia. Então, andar na linha não tem sentido nenhum quando o que conta é a opinião que o público tem de você (culpado ou não). Por isso a cena anterior para deixar bem claro ao espectador a integridade do personagem. Se todos dizem ou pensam que você é culpado não faz a menor diferença se é verdade ou não. Na ótica deles, claro.

Pessoas influenciáveis influenciam outras pessoas e assim a mentira toma proporções inimagináveis até tornarem-se verdades inquestionáveis. Aquela velha história: Onde há fumaça, há fogo crêem a maioria desinformada ou maldosa. O que fica é a imagem que vai se formando na cabeça das pessoas influenciáveis pelo que a mídia diz ou o que a fofoca maldosa diz de você: Bandido ou herói. Uma linha tênue como se vê…

Assim, apontado por todos como pedófilo e sofrendo toda série de violência verbal, moral e física, Lucas tenta provar sua inocência feito Josef K, o personagem emblemático de Kafka, que se vê envolvido num processo que não sabe do que é culpado e cuja burocracia jurídica o enreda em tramas e teias das mais inverossímeis.

Outro ponto interessante nesta estranha história é colocar por terra o ditado popular que criança não mente. Aqui mente e muito bem. Quem não acreditaria numa menininha linda, loira, olhos azuis e de uma meiguice comovente? Claro que psicólogos forenses não recomendariam a forma como o policial inquiriu a garota para saber exatamente o que ocorreu. Eu, que não sou psicólogo infantil (e muito menos forense) achei aquela entrevista das mais estranhas. Ou seja, é mais fácil acreditar na criança que, por princípio não mente do que em um adulto que está rodeado, de forma suspeita, por crianças.

As razões que levam Klara a levantar falso testemunho de abuso sexual se explica pela convivência tumultuosa e pouco amorosa que leva junto aos seus pais. Na tentativa de buscar conforto e uma aproximação afetiva com o “tio” da escola ela recebe uma reprimenda para manter um certo distanciamento. Por vingança (ou seria um pedido de ajuda?) resolve colocá-lo em apuros.

Como se vê, o roteiro nos abre inúmeras possibilidades de interpretação e análise. Além é claro de relatar os problemas pessoais que o personagem enfrenta na sua vida de recém separado (litigiosamente pelo que se percebe) e longe de seu amado filho. Aliás, tema que por si só daria outro filme.

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