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Archive for março \31\UTC 2014

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Na minha infância e adolescência, lembro que sentia medo quando ouvia uma sirene, via passar uma “radiopatrulha” ou tinha que cruzar, na mesma calçada, com alguém de uniforme militar ou policial.Lembro também que, toda vez que passava um veículo com “chapa-branca”, batíamos no ombro da pessoa mais próxima e fazíamos continência. Tenho lembrança ainda do clima de medo no ar e de não entender aqueles números e estatísticas que o regime divulgava na imprensa. Eram dados que mostravam a felicidade do povo, de como éramos uma nação forte economicamente e que nossa indústria e comércio produziam e vendiam bens de consumo ao alcance do trabalhador brasileiro.

Eu assistia a tudo isso e pensava comigo mesmo: Será que só eu não tenho acesso a toda esta riqueza e vivo à margem desta sociedade maravilhosa que a imprensa divulga? Olhava para o lado e via gente mais pobre ainda e vivendo miseravelmente. Realmente não entendia aquelas estatísticas. Pior que não entender a “propaganda oficial” era perceber que os “adultos” não faziam nada contra a mentira descarada (claro que eu não tinha conhecimento, naquela altura da minha vida, da resistência e das pessoas que lutavam contra a ditadura).

Vem deste tempo, minha descrença completa sobre números e estatísticas divulgadas na imprensa. Depois que li 1984, de George Orwell, entendi a armadilha que o regime nos impunha com sua propaganda “Pra Frente Brasil” e toda aqueles inúteis e falsos números.

Medo, insegurança e descrença são sentimentos que lembro daqueles tempos.

Quando você for pensar, cogitar ou mesmo admitir a hipótese da volta dos militares ao poder, peça que alguém da sua família que viveu nos anos de chumbo, conte sua história e a experiência que teve em viver aquele período.

DITADURA NUNCA MAIS!

50 anos do golpe

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Insensatez da Vida Privada

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Cena 1
Local: Quarto de hospital por volta das 23h30. 
Celular toca de forma estridente em alto volume.
Paciente “A”, após alguns segundos tentando encontrar o aparelho, atende à ligação:
– Alô!
– …
– Oi, tudo bem? Trocou o chip? Não reconheci o número…
-…
– Não tudo bem, agora está tudo bem.
– …
Diálogo transcorre por quase 10 minutos sobre assuntos triviais. 

Cena 2
Local: Quarto de hospital por volta da uma da madrugada
Celular da paciente “A” toca novamente e a acorda de sono profundo.
– Alô!
– …
– Tudo bem, estava dormindo um pouco
– …
– Pois é, menina eu soube. Que coisa!
– ….
– Eu já falei antes, que ela tem que falar pra ele sobre isso…
– …
– Tá, tchau!

Cena 3
Local: Mesmo quarto de hospital por volta da uma e meia da madrugada
Celular da paciente “A” toca insistentemente. Outros internos no quarto despertam com a música do aparelho que continua a tocar até ser atendido. 

– Alô!
– ….
– Estava dormindo. 
– …
– Tudo bem, agora estou bem. 
– …
– Tá bom, depois a gente vê isso e resolvemos quando eu chegar em casa.
– …
Diálogo continua por alguns minutos sobre problemas e dilemas particulares.

Cena 4
Local: quarto de hospital por volta das duas da madrugada
Celular, em alto volume da paciente “B” , toca. Todos acordam e ouvem, constrangidos, mais um diálogo de assuntos particulares. 

Poderia ficar aqui enumerando cenas e mais cenas desta insensatez das pessoas que ligam para seus familiares internos em hospitais. Provavelmente, você que acompanhou ou acompanha familiares já devem ter enfrentado situações constrangedoras e incômodas como esta. 

Que coisa. Nem nos hospitais as pessoas se desligam dos seus celulares! Além de perturbarem a recuperação da pessoa que recebe a ligação, perturbam também os demais pacientes que estão deitados (e tentando dormir) nas camas ao lado. 

Deveria ser norma, pacientes desligarem seus celulares a partir das 20h. Melhor ainda, não portarem celulares nos quartos. Afinal, estão em recuperação e em tratamento de suas doenças. Seus familiares deveriam ter o bom senso de não ligarem para eles em horários tão impróprios incomodando todo mundo. Além de falta de bom senso, é um desrespeito!

Aquele cartaz de corredor de hospital com uma enfermeira exigindo silêncio deveria, também existir outro, em maior tamanho, proibindo uso de celular.

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ImagemRealmente não existem coincidências nesta vida! Depois de assistir ao belo “Azul é a Cor Mais Quente” resolvi assistir ao filme Glória, dirigido por Sebastián Lelio. O primeiro fala dos relacionamento amorosos da juventude e o segundo do amor na terceira idade. Ambos, possuem cenas de nudez e sexo sem ofender a dignidade do espectador ou pela gratuidade do nu como forma apelativa para criar polêmica na mídia e escandalizar moralistas de plantão. Os dois filmes são verossímeis em suas histórias e sinceros nos seus respectivos roteiros e diálogos.

A personagem que dá título ao filme, é uma mulher cinquentona que, divorciada há mais de dez anos, classe média alta, bom emprego, filhos crescidos e independentes e, para divertir-se, frequenta salões de bailes da terceira idade. Se define como uma mulher que “Ás vezes fica triste pela manhã, às vezes, à tarde”. Ou seja, é uma mulher que tenta sobreviver e encarar de frente todos os desafios.

Nestes bailes, flerta com um e outro, relaciona-se sexualmente quando lhe dá prazer e vai levando a vida cantando as músicas que escuta pelo rádio e bailando pelas noites chilenas. Aparentemente, é uma mulher resolvida que criou os filhos de forma a torna-los independentes para que eles não peguem no seu pé. Claro que ela ama os filhos e se preocupa com eles. Não os abandonou de todo e os acompanha e os orienta quando necessário.

Ao conhecer Rodolfo (Sérgio Hernández) também divorciado, Glória sente que pode surgir ali um relacionamento mais duradouro e se permite vivenciar novamente esta paixão e esta união. Lá pelas tantas, o amado declama um poema que lhe dá a certeza que encontrou novamente um companheiro apaixonado e que podem ser felizes juntos. Quem não acreditaria nisso, ao ouvir, do amado a declamação do seguinte poema:

“Eu gostaria de ser um ninho,
se você fosse um passarinho”.

“Eu gostaria de ser
um lenço se você”
“fosse um pescoço
e estivesse com frio”.

“Se você fosse música,
eu seria uma orelha”.

“Se você fosse água,
eu seria um copo”.

“Se você fosse a luz,
eu seria um olho”.

“Se você fosse um pé,
eu seria uma meia”.

“Se você fosse o mar,
eu seria uma praia”.

“E se você ainda fosse o mar,
eu seria um peixe,”
“e nadaria em você”.

“E se você fosse o mar,
eu seria sal”.

“E se eu fosse sal,
você seria alface,”
“um abacate ou, pelo menos,
um ovo frito”.

“E se você fosse um ovo frito,”
“eu seria um pedaço de pão”.

“E se eu fosse um pedaço de pão,
você seria manteiga ou geleia”.

“Se você fosse geleia,
eu seria o pêssego na geleia”.

“Se eu fosse um pêssego,
você seria uma árvore”.

“E se você fosse uma árvore,
eu seria sua seiva”
“e correria em seus braços
como sangue”.

“E se eu fosse sangue,”
“viveria em seu coração”.

ImagemEmocionada Glória derrama-se em lágrimas e resolve assumir de vez o relacionamento. Sente, todavia, que Rodolfo esconde este relacionamento de sua família. Ela por sua vez, faz questão de apresentar o companheiro para os filhos. Ela mostra assim, que não é uma mulher de brincadeira e tem coragem de fazer seu próprio destino. Mesmo que tenha falhado no casamento anteriormente. Infelizmente não é o que acontece com Rodolfo. Divorciado há um ano, não conseguiu ainda se desvincular da família e sustenta a mulher e as filhas. Aliás, são extremamente dependentes dele. Ligam nas horas mais impróprias interferindo assim neste novo relacionamento.

Esta dependência da família do amado vai minando, pouco a pouco, a convivência do novo casal e, por não conseguir separar-se da antiga família, Rodolfo vai perdendo a nova companheira. Glória sabe que precisa dar um ultimato e, muito esperta sugere que eles passem dez dias isolados do mundo numa espécie de lua de mel. Claro que ele não consegue encarar esta realidade e foge, covardemente, de seu destino ao lado de Glória.

Um belo filme sobre relacionamentos maduros e a coragem de uma mulher que enfrenta seus desafios de cabeça em pé e não tem medo de encarar novos relacionamentos. Claro que não aceita parceiros covardes ou que não queiram assumir, verdadeiramente, esta nova realidade. Uma mulher de fibra das muitas que existem a nossa volta.

A muito não via um filme tão verdadeiro nesta questão da maturidade feminina e das suas conquistas. Glória é uma mulher com seus defeitos e qualidades, suas tristezas e alegrias e que está disposta a não ficar na janela a ver o tempo passar e ao cair, levanta a poeira e segue em frente. Bravo!

A interpretação de Paulina García na pele de Glória é emocionante. Convence em cena e, como a própria personagem, não tem pudores de aparecer em nu frontal em várias cenas. Por este trabalho, foi premiada no Festival de Berlin em 2013. Impressionante também a interpretação de Sérgio Hernández na figura do atormentado Rodolfo.

Só a título de observação: Muito legal ouvir “águas de março” de Tom Jobim, interpretado pelos atores no filme!

Como se vê, é complicado mesmo os relacionamentos humanos. Sejam eles jovens ou maduros. Viver com outra pessoa requer, muito mais que amor. Requer afinidades, companheirismo e atitude. Ambos os filmes tratam desta questão e prova que nós, seres humanos, somos realmente muito complexos.

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Azul é a Cor Mais Quente

ImagemDepois de assistir ao filme “Azul é a Cor Mais Quente”, dirigido por 

Abdellatif Kechiche e brilhantemente interpretado por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux posso dizer, sem medo de errar, que esta produção vai entrar na minha lista dos dez mais deste ano. 

Raramente vi um filme retratar o amor de forma tão intensa e verdadeira. O amor e o desejo, diga-se. E não são só as questões do coração (e do desejo) que Abdellatif mostra nesta produção. É possível, pela narrativa, ter uma visão mais ampla do ser humano: Seus medos, angústias, desejos, perdas e ganhos. Um painel humano muito mais amplo do que simplesmente uma relação amorosa entre duas pessoas. 

Antes de continuar a ler o texto abaixo, aviso que sou campeão em spolier. Assim, se você ainda não viu o filme, melhor parar por aqui. Depois até gostaria de saber sua opinião sobre este belo filme. 

Um recurso bastante utilizado na narrativa, é dar ao espectador pistas das situações em que Adèle vai enfrentar ao longo da narrativa. Em sala de aula, o texto que estão estudando trata justamente da questão do amor, atração e a possibilidade, ou não, do “amor à primeira vista”. Na cena seguinte assistimos exatamente este acontecimento quando Adèle cruza, pela primeira vez, com Emma. Até mesmo a tentativa que ela faz em se envolver com um colega de sala de aula sabemos que seu destino já está traçado com a mulher de cabelo azul. Adèle também já sabe disso. 

Toda mudança de situações de vida dos personagens, é precedido de cenas que vão dar ao espectador a chance de entender o que virá e as escolhas que as amantes terão que enfrentar e o que lhes reservam o destino. O diálogo das personagens sobre a obra de Sartre e sua teoria filosófica do existencialismo precede outra mudança ou entendimento das emoções que estão passando no momento. Até mesmo a festa em que Emma realiza para apresentar seus amigos a amente, o recurso é utilizado com o filme que passa ao fundo. Ambas as cenas (o filme que os convidados assistem e o desenrolar do “nosso” filme) são pontuados das mesmas situações. Brilhante!

Não pense que este recurso é enfadonho ou de menosprezo pela inteligência do espectador. Longe disso. Toda vez que isso acontecia, eu ficava mais curioso ainda em saber como os personagens iriam reagir em suas vidas e nas suas escolhas a partir destes preâmbulos textuais, visuais ou mesmo através de eróticos sonhos. Sim, Adèle sonha sua primeira noite de amor com a mulher de cabelo azul antes mesmo da primeira transa real. 

Como já citei acima, o filme retrata outras situações humanas e não fica só nesta questão de desejos sexuais. Esta produção é mais impactante justamente por isso. Relação homem/mulher, divisão de classe social, compatibilidade (ou incompatibilidade de convivência, relações familiares, amor e claro, homossexualismo. 

Um dos aspectos interessantes tratado no filme, foi mostrar a incompatibilidade de uma relação duradoura com pessoas com interesses tão antagônicos. Adèle quer ser uma professora primária e seus interesses se resumem a este mundo. Apesar de ser uma voraz leitora, não entende muito o que lê. No relacionamento de ambas, seria aquela responsável pelas lidas domésticas (ela que faz o jantar, cuida da casa enquanto Emma fica na cama lendo jornal). Por outro lado, Emma é artista plástica, possui um amplo círculo de amigos intelectuais e adora uma discussão intelectual sobre filosofia, arte e o mundo que a rodeia. Temos aqui, uma relação que tem tudo para não dar certo. Para mudar esta situação, Emma tenta, de todas as formas, incutir na amada o desejo que ela abra seus horizontes e a acompanhe neste universo e se torne uma companheira para todas as ocasiões. Na cena em que Emma, desesperadamente tenta encontrar uma forma de salvar a relação, pede que Adèle se torne uma escritora já que ela gosta de ler e escreve alguns poemas que esconde em seu diário. 

Assim, começam a surgir rachaduras na relação, Incompatibilidades que o desejo sexual não consegue suprir. Até mesmo o segredo que faz perante seus colegas de escola da relação que possui torna a situação mais complicada ainda. Não tem como ela se aceitar se ela não aceita que os outros saibam da sua relação. Não tem como dar certo se ela, a todo momento, procura outra relação heterossexual para encontrar respostas para suas dúvidas e desejos. Esta ambiguidade de desejo, vai minando mais e mais esta relação. 

Azul é a cor mais quente, não é, como poderia se supor, um filme sobre homossexualismo. Não só isso, pelo menos. E quando trata do tema, o faz com sinceridade, respeito e sem os clichês e estereótipos comuns de produções que se dedicam ao tema. A história da relação amorosa das protagonistas, é a história de qualquer casal, sejam eles formados por homem e mulher ou pessoas do mesmo sexo. A questão tratada aqui é relação de pessoas que se amam. Desejos e conflitos existenciais comuns a todos os casais heterossexuais ou homossexuais. 

As cenas de sexo são de deixar qualquer um com o coração acelerado! Cenas de uma plasticidade incrível e sem pudores. Belíssimos momentos e fortes emoções. A beleza das atrizes e seus corpos bem torneados ajudam, e muito, a deixar o espectador excitadíssimo e atento a cada gesto e gemidos em cena. Prepare-se!

Brilhante atuação de Adèle Exarchopoulos (Adèle) e Léa Seydoux (Emma) que conferiram veracidade aos seus personagens. Parabéns a jovens atrizes pela coragem das cenas calientes e de se entregarem de corpo e alma a esta história de amor. Salva de palmas para a produção que soube contar esta história de forma digna, sem concessões e sem os estereótipos e clichês.

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