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Archive for the ‘Caracteres Cinematográficos’ Category

Grandes Olhos, Dirigido poTim Burton com Amy Adams e Christoph Waltz é um filme que, confesso, fiquei intrigado pela razão do Tim Burton se interessar por esta história.

Nada nesta produção lembra os trabalhos anteriores do diretor. Tudo bem que o cara precisa se reinventar, caminhar por outras paragens e coisa e tal. Mas fica difícil não ser Tim Burton, sendo Tim Burton. A estranheça já começa pelo desenho de produção: figurinos, cenários, maquiagem, trilha sonora, etc… etc… e esta história tão linear, quase como um documentário.

Christoph Waltz dá um show de interpretação e consegue ser o mesmo vilão de sempre com aquele charme que o consagraram em outros trabalhos. O grande problema do filme, é que o roteiro tornou a história maquineísta de mais. O espectador não tem o privilégio da dúvida, de conhecer as razões dos personagens e suas motivações. Razões profundas, quero dizer. Além da questão financeira e machista apontadas no desenrolar da trama, tudo o mais passa batido ou é ignorado. Assistimos, passivamente, as cenas que se desenrolam na tela. E isso é o grande problema de Grandes Olhos.

De qualquer forma, é um filme que vale a pena assistir e conhecera história real de uma mulher que tem talento para a pintura, mas que aceita que o marido assuma a autoria dos trabalhos para ganharem dinheiro em um mundo machista.

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Freddy tinha um sonho: Seguir os passos de seu ídolo, o campeão de ciclismo Eddy Merckx. Acontece que o destino do garoto já estava traçado antes mesmo dele nascer.

O futuro de Freddy é ser a quarta geração de açogueiro na pequena cidade onde mora com sua família. Por sorte (ou não) um grande supermercado vai abrir as portas nas redondezas e, para marcar a data, o estabelecimento organiza uma corrida de bicicletas, cujo prémio maior será receber o troféu das mãos grande Eddy Merckx.

O filme Vai, Eddy! com roteiro e direção de Gert Embrechts, vai narrar esta história e as batalhas que o garoto terá que enfrentar para conseguir realizar seu sonho.

Como todo filme de superação, este também tem lá seus clichês e o final previsível e tudo mais. As interpretações não são as melhores do mundo, mas o filme comove em alguns momentos. Jelte Blommaert, no papel de Freddy, se esforça bastante para tornar seu papel verossímil.

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O filme Lucke, escrito e dirigido por Steven Knight é uma produção muito interessante e prova que uma boa ideia não precisa, necessariamente, ter grandes cenários, figurinos, trilha sonora arrebatadora e cenas mirabolantes para prender o espectador.

Imagine você pegarr “carona” com um sujeito e, durante noventa minutos, acompanhar o desenrolar da vida deste cara. Muito mais que um “road movie”, Lucke é, antes de tudo, um filme humano. Demasiadamente humano.

Já nas primeiras cenas, o ator Tom Hardy prova que foi uma boa escolha para interpretar o atormentado Ivan Locke. Em nenhum momento o filme é enfadonho apesar de contar somente com um personagem em cena nos noventa minutos que transcorre este suspense de tirar o chapéu. A tensão aumenta a cada ligação recebida ou nas chamadas realizadas por Lucke. Como ele consegue administrar tudo isso em pleno trânsito é algo enervante.

Ivan Lucke é um engenheiro de edificações, casado há mais de quinze anos e pai de dois filhos que, ao final do expediante decide enfrentar seus medos e resolver suas pendências. Assim, ele pega sua BMW e parte para assistir o parto de seu filho fruto de um caso furtuíto com uma colega de trabalho. O problema, é que pela manhã terá que acompanhar de perto o descarregamento de mais de 250 caminhões de concreto em sua obra para que nada saia errado.

Durante o tracheto até o hospital, Lucke recebe (e faz) inúmeras ligações: Do patrão em pânico pela ausência do imprescindível engenheiro no momento mais crítico da edificação; da amante que clama por sua presença na hora do parto; dos filhos que esperam sua companhia para assistir a um jogo importante; do mestre de obras, que bêbado, não sabe como gerenciar a crise e da própria mulher que fica sabendo do filho bastardo e da escapadinha do marido.

Um filme que vale a pena assistir.

Nota: 4/5

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ImagemRealmente não existem coincidências nesta vida! Depois de assistir ao belo “Azul é a Cor Mais Quente” resolvi assistir ao filme Glória, dirigido por Sebastián Lelio. O primeiro fala dos relacionamento amorosos da juventude e o segundo do amor na terceira idade. Ambos, possuem cenas de nudez e sexo sem ofender a dignidade do espectador ou pela gratuidade do nu como forma apelativa para criar polêmica na mídia e escandalizar moralistas de plantão. Os dois filmes são verossímeis em suas histórias e sinceros nos seus respectivos roteiros e diálogos.

A personagem que dá título ao filme, é uma mulher cinquentona que, divorciada há mais de dez anos, classe média alta, bom emprego, filhos crescidos e independentes e, para divertir-se, frequenta salões de bailes da terceira idade. Se define como uma mulher que “Ás vezes fica triste pela manhã, às vezes, à tarde”. Ou seja, é uma mulher que tenta sobreviver e encarar de frente todos os desafios.

Nestes bailes, flerta com um e outro, relaciona-se sexualmente quando lhe dá prazer e vai levando a vida cantando as músicas que escuta pelo rádio e bailando pelas noites chilenas. Aparentemente, é uma mulher resolvida que criou os filhos de forma a torna-los independentes para que eles não peguem no seu pé. Claro que ela ama os filhos e se preocupa com eles. Não os abandonou de todo e os acompanha e os orienta quando necessário.

Ao conhecer Rodolfo (Sérgio Hernández) também divorciado, Glória sente que pode surgir ali um relacionamento mais duradouro e se permite vivenciar novamente esta paixão e esta união. Lá pelas tantas, o amado declama um poema que lhe dá a certeza que encontrou novamente um companheiro apaixonado e que podem ser felizes juntos. Quem não acreditaria nisso, ao ouvir, do amado a declamação do seguinte poema:

“Eu gostaria de ser um ninho,
se você fosse um passarinho”.

“Eu gostaria de ser
um lenço se você”
“fosse um pescoço
e estivesse com frio”.

“Se você fosse música,
eu seria uma orelha”.

“Se você fosse água,
eu seria um copo”.

“Se você fosse a luz,
eu seria um olho”.

“Se você fosse um pé,
eu seria uma meia”.

“Se você fosse o mar,
eu seria uma praia”.

“E se você ainda fosse o mar,
eu seria um peixe,”
“e nadaria em você”.

“E se você fosse o mar,
eu seria sal”.

“E se eu fosse sal,
você seria alface,”
“um abacate ou, pelo menos,
um ovo frito”.

“E se você fosse um ovo frito,”
“eu seria um pedaço de pão”.

“E se eu fosse um pedaço de pão,
você seria manteiga ou geleia”.

“Se você fosse geleia,
eu seria o pêssego na geleia”.

“Se eu fosse um pêssego,
você seria uma árvore”.

“E se você fosse uma árvore,
eu seria sua seiva”
“e correria em seus braços
como sangue”.

“E se eu fosse sangue,”
“viveria em seu coração”.

ImagemEmocionada Glória derrama-se em lágrimas e resolve assumir de vez o relacionamento. Sente, todavia, que Rodolfo esconde este relacionamento de sua família. Ela por sua vez, faz questão de apresentar o companheiro para os filhos. Ela mostra assim, que não é uma mulher de brincadeira e tem coragem de fazer seu próprio destino. Mesmo que tenha falhado no casamento anteriormente. Infelizmente não é o que acontece com Rodolfo. Divorciado há um ano, não conseguiu ainda se desvincular da família e sustenta a mulher e as filhas. Aliás, são extremamente dependentes dele. Ligam nas horas mais impróprias interferindo assim neste novo relacionamento.

Esta dependência da família do amado vai minando, pouco a pouco, a convivência do novo casal e, por não conseguir separar-se da antiga família, Rodolfo vai perdendo a nova companheira. Glória sabe que precisa dar um ultimato e, muito esperta sugere que eles passem dez dias isolados do mundo numa espécie de lua de mel. Claro que ele não consegue encarar esta realidade e foge, covardemente, de seu destino ao lado de Glória.

Um belo filme sobre relacionamentos maduros e a coragem de uma mulher que enfrenta seus desafios de cabeça em pé e não tem medo de encarar novos relacionamentos. Claro que não aceita parceiros covardes ou que não queiram assumir, verdadeiramente, esta nova realidade. Uma mulher de fibra das muitas que existem a nossa volta.

A muito não via um filme tão verdadeiro nesta questão da maturidade feminina e das suas conquistas. Glória é uma mulher com seus defeitos e qualidades, suas tristezas e alegrias e que está disposta a não ficar na janela a ver o tempo passar e ao cair, levanta a poeira e segue em frente. Bravo!

A interpretação de Paulina García na pele de Glória é emocionante. Convence em cena e, como a própria personagem, não tem pudores de aparecer em nu frontal em várias cenas. Por este trabalho, foi premiada no Festival de Berlin em 2013. Impressionante também a interpretação de Sérgio Hernández na figura do atormentado Rodolfo.

Só a título de observação: Muito legal ouvir “águas de março” de Tom Jobim, interpretado pelos atores no filme!

Como se vê, é complicado mesmo os relacionamentos humanos. Sejam eles jovens ou maduros. Viver com outra pessoa requer, muito mais que amor. Requer afinidades, companheirismo e atitude. Ambos os filmes tratam desta questão e prova que nós, seres humanos, somos realmente muito complexos.

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Não Me     Abandone Jamais, dirigido por Mark Romanek baseado na obra de Kazuo Ishiguro é uma daquelas produções que ficam martelando na cabeça do espectador após a projeção.  Devo confessar que este filme me incomodou bastante.  No bom sentido, claro já que gosto muito de roteiros que coloquem mais dúvidas do que certezas na minha cabeça. Foi o que fez o roteirista Alex Garland com sua arte. Se fosse obrigado a escrever, em uma única frase, a história deste filme, me atreveria a declarar o seguinte: Viver só vale à pena se estivermos com o coração transbordando de amor.  Tudo o mais é irrelevante.

Calma, não precisa torcer o nariz com o clichê do parágrafo acima. Até porque, este filme não possui os clichês que se esperaria de uma produção que tem o amor como tema. São poucos na verdade nos 103 minutos que transcorrem na tela. Aliás, Não Me Abandone Jamais nem é classificado como “romântico” pela crítica especializada. “é um filme de ficção inglês“ foi o que li. Vamos ao roteiro para não ficar divagando e dando voltas.

Só um aviso: Caso não tenha assistido ao filme, não leia os comentários a partir daqui porque sou campeão em spoiler.

Katy, Tommy e Ruth cresceram juntos num internato inglês aparentemente muito convencional com regras rígidas de comportamento, disciplina e excelente educação (pedagógica e física) num ambiente saudável rodeados de exuberante natureza e sossego. Como todo bom internato inglês que se preze.

A vida dos adolescentes em Hailsham, afastados de qualquer contato com o mundo exterior, segue uma rotina de estudos, excelente alimentação, exercícios físicos e… Bem, ai é que a coisa se complica. Tem alguma coisa estranha no comportamento passivo e ingênuo das crianças e no relacionamento distante e asséptico entre professores e internos.

Esta normalidade toda é quebrada com a chegada da nova tutora da 4ª série, Miss Lucy. Na convivência com os alunos, Miss Lucy percebe que as crianças ignoram completamente o que se passa fora dos muros da instituição e, pior que isso, elas acreditam em um futuro promissor. No discurso que faz em sala de aula a tutora revela a dura realidade às crianças:

“Nenhum de vocês irá para os Estados Unidos, nenhum de vocês será ator de cinema. […] Suas vidas já foram mapeadas. Vocês se tornarão adultos e, antes de ficarem velhos, antes mesmo de entrarem na meia-idade, começarão a doar órgãos vitais. Foi para isso que todos vocês foram criados. Vocês não são como os atores que vêem nos vídeos, não são nem mesmo como eu. Vocês foram trazidos a este mundo com um fim, e o futuro de vocês, de todos vocês, já está decidido”

Depois desta revelação, eu pensei que os internos cairiam em depressão ou se rebelariam contra esta desumanidade e não aceitariam, passivamente, esta existência de “ratos de laboratório”. Mas não é o que acontece. E isso é o mais perturbador da narrativa. Como não reagir indignado com uma existência desta?

A partir desta revelação (para os jovens e para o espectador) o filme toma outro rumo no que se poderia classificar como segundo ato. A partir do discurso revelador de Miss Lucy, comecei a ficar incomodado com a passividade das crianças em aceitar uma vida sem futuro e uma existência de simples “mercadorias” em uma loja de horrores. Além é claro, de pipocar na minha cabeça inúmeros questionamentos que a trama não revela: Como a sociedade chegou a este ponto de menosprezar a vida das pessoas? Como se dá este processo doação/recepção dos órgãos? Que fim levou a ética médica, a questão moral, religiosa e filosófica que permitiram que outras pessoas viessem a explorar outros seres humanos como mercadoria? E principalmente, como eles (as crianças e depois adultos), permitiram receber este tratamento desumano? Deveriam reagir!

Ao término do filme e ainda sob o impacto do que tinha assistido uma única certeza: Tinha mais dúvidas do que respostas na minha inquieta cabeça. Precisaria de mais tempo para digerir tudo isso e fui tentar conciliar o sono. Que não vinha… Cenas do filme, diálogos comoventes e aquelas cores sombrias embalados por uma trilha sonora inquietante se acumulavam no meu cérebro e perturbavam minha paz noturna. Tive pesadelos. Sim, eu sou uma pessoa impressionável e suscetível a sentimentos (bons e/ou ruins). Que fazer se sou um ser sentimental! Mas é preciso racionalizar para tentar entender a trama (será possível?) e o que exatamente foi proposto na obra de Ishiguro. Será que já não estamos caminhando nesta direção? Quando uma mãe, no desespero de salvar um filho que precisa de doação, resolve engravidar novamente para conseguir órgãos compatíveis não estaria desta forma praticando ato parecido? A ciência já deu mostras de sua capacidade de clonar seres vivos (lembram da ovelha Doly?) e tantos experimentos com DNA, células tronco, etc… etc…  Uns dizem que o homem quer ser Deus e também ser responsável pela vida e morte de seus semelhantes. Quando não simplesmente extinguir outros seres. Mas isso é outra história.

O interessante no roteiro é que a história, apesar de ser uma ficção científica, começa  na década de 50 e, percebe-se que estes fatos (clonagem humana e seres criados somente como portadores de órgãos para doação) já estão firmemente aceitos pela sociedade e ninguém se escandaliza mais com esta barbárie. Uma distopia interessante porque se acredita (e se espera) que o futuro será melhor para todos. Bem, para as pessoas que recebem as doações pode ser, mas e os internos, quem se preocupa com eles? Crueldade maior é saber que os jovens eram estimulados em Hailsham a desenvolverem aptidões artísticas como pintura, literatura, poesia, artes plásticas para que tais trabalhos fossem expostos numa respeitável galeria. Na realidade, tais “obras” se destinavam para outros fins que o espectador (e os jovens), irão descobrir ao final do filme quando a guardiã da instituição, Miss Emily faz a seguinte revelação.

“Nós levávamos seus trabalhos porque achávamos que eles revelariam a alma de vocês. Ou, para esclarecer melhor a questão, fazíamos isso para provar que vocês tinham uma alma. […] Demonstramos para o mundo que, quando criados num ambiente humano e culto, os alunos podiam se tornar tão sensíveis e inteligentes quanto qualquer ser humano normal. Antes disso, todos os clones – ou alunos, como nós preferíamos chamá-los – existiam apenas para abastecer a ciência médica. Nos primeiros tempos, logo depois da guerra, isso era tudo que vocês representavam para a grande maioria. Objetos obscuros em tubos de ensaio”.

O que me levou a entender as razões do roteiro em ambientar a história no passado e não no futuro. Considerar outros seres humanos sem alma já vem de um passado não tão remoto assim. Os escravos eram considerados meros animais de força bruta destituídos de qualquer humanidade e sem alma. Hitler, e seus cúmplices, acreditavam que os judeus eram ratos e, como tal, eram tratados. Em ambos os casos (e muitos outros) a sociedade não reagiu para evitar estas barbáries. Como foi possível que nações inteiras aceitassem a exterminação de seis milhões de judeus? Como foi possível que pessoas cultas e ditas “civilizadas” explorassem, por décadas e décadas, a mão de obra escrava e considerassem estas pessoas sem alma? Enfim, esta é uma questão filosófica, moral e religiosa que já nos acompanha há séculos. E como se vê, não evoluímos quase nada nesta área de respeito ao próximo. Vide os povos da África que morrem à míngua, mulheres que sofrem toda sorte de crueldade e colocadas como seres de segunda classe em nome de religião e de uma cultura retrógrada. Vamos falar de amor? Afinal você deve estar se perguntando onde entra o romântico nesta história. Isso se você não desistiu da leitura deste texto e está correndo até agora deste dramalhão todo. Perceberam que temos um triângulo como personagens principais da história? Pois é. Como todo bom triângulo outro drama irá se desenrolar paralelamente à história dos clones. Assim, voltamos ao sentido da frase que citei no primeiro parágrafo: Viver só vale à pena se estivermos com o coração transbordando de amor.  Acredito que Ruth (Keira Knightley), Tommy (Andrew Garfield) e Kathy (Carey Mulligan) suportaram esta existência porque, de uma forma inesperada, o amor os alcançou. Assim como ciúmes e a inveja. Porque um triângulo sem estes sentimentos também não seria trágico e sim um “ménage à trois” (risos). A impossibilidade de Tommy em por fim ao relacionamento com Ruth (relacionamento só sexual, diga-se) e declarar-se verdadeiramente para Kathy leva-os a viverem na esperança de que um dia o amor de ambos possa ter chance de concretizar-se. Nesta esperança de viver um grande amor, vão sofrendo a humilhação de serem meros carregadores de órgãos. Quando finalmente Tommy se declara e passam a viver a amplitude deste amor, o tempo, inexorável,  já passou para ambos e as doações vão minando a possibilidade de vida futura. Ao fim, cabe a Ruth, a última sobrevivente do trio, expor as razões de ter conseguido enfrentar sua sina:

“Venho aqui e imagino que este é o lugar onde descansa tudo o que perdi desde a minha infância. Digo a mim mesma que se fosse verdade e esperasse o suficiente uma pequena figura apareceria no horizonte através do campo e gradualmente iria crescendo, até que eu visse que era o Tommy. Ele acenaria e talvez me chamasse. Não deixo que a fantasia vá além disso. Não posso permitir.

Lembro a mim mesma que tive sorte de ter passado um tempo com ele. O que não sei ao certo é se nossas vidas foram tão diferentes das vidas das pessoas que salvamos. Somos todos mortais. Talvez nenhum de nós realmente entenda o que passamos ou sinta que tivemos tempo o bastante.”

Vale salientar a comovente trilha sonora, a direção de arte que utilizou cores neutras para destacar bem o distanciamento dos relacionamentos humanos. Em cena, os personagens principais sem sobrenomes, sem identidades e pouquíssimas pessoas  a cruzarem seus caminhos. Uma solidão sufocante, quase como um personagem na história. Devo confessar que não sou fã de Keira Knightley, mas sua atuação não compromete o filme como um todo. As interpretações de Andrew Garfield e Carey Mulligan são contidas e comoventes. Vale a pena assistir. Mas esteja preparado psicologicamente e tenha lenços para enxugar rios de lágrimas. 

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Gosto muito de filmes que coloquem “minhocas na minha cabeça” e que me deixem com o questionamento, será que entendi direito? A Caça, dirigido por Thomas Vinterberg encaixou-se perfeitamente nesta categoria de filmes. Muito longe de ser um suspense meia boca, revelou-se um grande filme dramático com inúmeras perspectivas de entendimento e brilhantemente interpretado por uma trupe de atores dos mais afinados que vi recentemente.

Sou muito atento às “dicas” que os roteiristas vão deixando nas primeiras cenas de suas histórias para dar ao espectador uma amostra do que será tratado no decorrer da trama. Com esta produção não foi diferente. Na cena em que o professor Lucas (Mads Mikkelsen) caminha, de mãos dadas, com a menina Klara com o cuidado de seguir “a linha” indicada na estrada, já percebi o tema (ou os temas) que o filme abordaria. O ser humano sempre segue linhas de comportamento na vida: moral, ética, social, cultural, etc… etc… A maioria, pelo menos. Afinal, somos seres sociais e é preciso seguir na linha para mantermos nossa condição de seres racionais. Outros extrapolam os limites e saem da linha para viverem nos presídios mundo a fora.

Com o passar dos minutos (e o desenrolar da história), a perspectiva de “andar ou não na linha” perde o significado quando Lucas, que sempre fora considerado por todos um cara legal, trabalhador, íntegro e um sujeito acima de qualquer suspeita cai na armadilha de se ver envolvido num jogo perverso de ser culpado por pedofilia. Então, andar na linha não tem sentido nenhum quando o que conta é a opinião que o público tem de você (culpado ou não). Por isso a cena anterior para deixar bem claro ao espectador a integridade do personagem. Se todos dizem ou pensam que você é culpado não faz a menor diferença se é verdade ou não. Na ótica deles, claro.

Pessoas influenciáveis influenciam outras pessoas e assim a mentira toma proporções inimagináveis até tornarem-se verdades inquestionáveis. Aquela velha história: Onde há fumaça, há fogo crêem a maioria desinformada ou maldosa. O que fica é a imagem que vai se formando na cabeça das pessoas influenciáveis pelo que a mídia diz ou o que a fofoca maldosa diz de você: Bandido ou herói. Uma linha tênue como se vê…

Assim, apontado por todos como pedófilo e sofrendo toda série de violência verbal, moral e física, Lucas tenta provar sua inocência feito Josef K, o personagem emblemático de Kafka, que se vê envolvido num processo que não sabe do que é culpado e cuja burocracia jurídica o enreda em tramas e teias das mais inverossímeis.

Outro ponto interessante nesta estranha história é colocar por terra o ditado popular que criança não mente. Aqui mente e muito bem. Quem não acreditaria numa menininha linda, loira, olhos azuis e de uma meiguice comovente? Claro que psicólogos forenses não recomendariam a forma como o policial inquiriu a garota para saber exatamente o que ocorreu. Eu, que não sou psicólogo infantil (e muito menos forense) achei aquela entrevista das mais estranhas. Ou seja, é mais fácil acreditar na criança que, por princípio não mente do que em um adulto que está rodeado, de forma suspeita, por crianças.

As razões que levam Klara a levantar falso testemunho de abuso sexual se explica pela convivência tumultuosa e pouco amorosa que leva junto aos seus pais. Na tentativa de buscar conforto e uma aproximação afetiva com o “tio” da escola ela recebe uma reprimenda para manter um certo distanciamento. Por vingança (ou seria um pedido de ajuda?) resolve colocá-lo em apuros.

Como se vê, o roteiro nos abre inúmeras possibilidades de interpretação e análise. Além é claro de relatar os problemas pessoais que o personagem enfrenta na sua vida de recém separado (litigiosamente pelo que se percebe) e longe de seu amado filho. Aliás, tema que por si só daria outro filme.

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Paloma é uma criança de onze anos que pensa em suicídio. Aliás, não só pensa como pretende executar seu plano no dia em que completar doze anos de vida. O espectador sabe deste desejo nos primeiros minutos do filme Porco Espinho, dirigido por Mona Acheche e brilhantemente interpretado por Garance Lê Guilhermic na pele da suicida Paloma Josse.

No decorrer dos 100 minutos da projeção, cabe ao espectador procurar entender as razões que levaram esta bela e inteligente menina a chegar a esta desesperadora situação e a colocar fim a sua curta existência. De princípio, notamos que ela vive confortavelmente e que sua rica família lhe disponibiliza o melhor dos mundos com educação primorosa, curso de japonês e uma existência sem grandes percalços. Não percalços financeiro pelo menos.

Para entender Paloma é preciso, portanto, conhecer as relações da menina com a sua família e as pessoas que circulam a sua volta. Em não sendo a situação econômica que a aflige, voltemos então nossa atenção para a sua família: A mãe é uma neurótica que há 10 anos faz psicanálise e é uma mulher egocêntrica e alienada que conversa com as plantas e não dá a mínima importância para a existência da filha. O pai, um burocrata de alto cargo público, idem. Não que ele fale com as plantas, mas igualmente ignora a rotina da garota. Sua irmã mais velha é fútil e vive igualmente no seu mundo particular.

Assim, temos uma Paloma a circular no seu luxuoso apartamento ignorada por todos. Sabemos que muitas crianças vivem em situações muito piores que ela e nem por isso pensam (e desejam) dar cabo de suas vidas. O problema de Paloma (ou a sua idéia de futuro) é que ela não quer ter uma vida medíocre como a mãe; uma existência de rotinas do pai e a futilidade existencial da irmã. Como quebrar este círculo e este futuro que a espera? Sem perspectiva alguma e sem encontrar motivos para continuar vivendo, Paloma resolve então acabar com a própria vida.

Como todo suicida, ela também procura encontrar uma saída e alguém que a salve deste trágico fim. Sua filmadora é, neste particular, sua tábua de salvação. Filmar a vida alheia pode, quem sabe, dar-lhe outra dimensão de sua realidade e uma outra perspectiva de futuro e de caminhos a seguir. Aliás, uma boa alternativa para encontrar soluções para problemas, aparentemente insondáveis, é ver o problema de longe, sob outro prisma. E esta filmadora foi para Paloma esta ferramenta de distanciamento que ela precisava para ver sua vida sob outro ângulo. Perceber a vida alheia serviu para mostrar-lhe as inúmeras possibilidades de vida e de soluções para problemas aparentemente sem solução. Claro que ela não tinha noção de nada disso e esta vida de voyeur juvenil foi razão para continuar vivendo. Este pensamento ocorre ao espectador. A mim me ocorreu pelo menos.

Quando ela direciona a câmara para o espectador e nos filma a todos a observá-la, percebemos a humanidade da menina e seu desespero em encontrar uma saída. Qualquer saída. Uma razão para lutar por sua vida. Um paradoxo interessante de um suicida. Ao filmar o encontro da zeladora de seu prédio com um novo inquilino Paloma acompanha o renascer de um companheirismo e um amor a que ela não está acostumada a presenciar e vivenciar. Acompanhar este relacionamento e seu desdobramento vai surgindo na alma da garota uma dúvida de que a vida pode ter inúmeras possibilidade de vivências e que é possível fazer seu próprio destino. A Dúvida se instala e lutar pode ser possível. Um outro mundo é possível.

Filosoficamente falando, Paloma procura resposta a seguinte pergunta: É possível modificar o destino e ser dono do próprio futuro? De câmara em punho, a filmar a vida alheia, ela busca incessantemente responder a esta vital questão.

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