Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Caracteres Poéticos’ Category

A poesia de João Cabral de Melo Neto (Recife, 09/01/1920 – 09.10.1999). O primeiro poeta que se rebelou contra o tratamento que todos possuem de considerar a poeta um ser intermediário entre um ser místico e santo.

Sua poesia é um retrato da paisagem natural e humana do nordestino. Seu trabalho é essencialmente de uma poesia de pensamento e imagens. Um homem que soube, como poucos poetas, dar preferência à musicalidade da poesia sem se utililzar da rima fácil.

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Animação baseada no poema “Tecendo a Manhã” de João Cabral de Melo Neto. Animação e Pós-produção: Rodrigo Alineri. Música e sonorização: Darci Vieira da Silva.

 

Anúncios

Read Full Post »

Para um dia especial como o de hoje nada mais natural que inspirar-se com poesia e sentir a presença da pessoa amada ao lado. Feliz aquele que ama (e é correspondido) ter a experiência de uma convivência de amor, harmonia e cumplicidade. Posso dizer que eu tenho esta sorte. Há vinte e dois anos tenho ao meu lado a mulher da minha vida e a ela dedico este poema. Sei que o grande poeta Fabrício Carpinejar não vai se importar que eu use suas palavras deste belo poema para expressar aqui o sentimento que me vai ao coração.

Para ti, Denise. Minha amada imortal.

 

UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA

 

Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores.

Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro.

Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas.

Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas.

Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente.

As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa.

Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou.

Fabrício Carpinejar

Read Full Post »

Acabaei de ouvir a Katia Suman declamando o poema “Seu Nome” de Fabrício Corsaletti no programa Sarau Elétrico apresentado na internet. (www.saraueletrico.com  Todos os sábados às 18:00 horas).

Logo pensei  em compartilhar este poema com meus amigos.

Então lá vai:

 

Seu Nome

 

“se eu tivesse um bar ele teria o seu nome

se eu tivesse um barco ele teria o seu nome

se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome

minha cadela imaginária tem o seu nome

se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome

se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome

se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome

se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome

se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome

a primeira garota que beijei tinha o seu nome

na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome

antes de você tive três namoradas com o seu nome

na rua há mulheres que parecem ter o seu nome

na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome

às vezes as nuvens quase formam o seu nome

olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome

o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome

Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome

não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome

se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome

minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome

se eu tiver uma filha ela terá o seu nome

minha senha do e-mail já foi o seu nome

minha senha do banco é uma variação do seu nome

tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome

tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome

tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome

tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome

quando fico bêbado falo muito o seu nome

quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome

é difícil falar de você sem mencionar o seu nome

uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome

coelho tinha o seu nome

xícara tinha o seu nome

teleférico tinha o seu nome

no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome

na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?

algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome

detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome

cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome

no cabo da minha bengala gravarei o seu nome

não posso ser niilista enquanto existir o seu nome

não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome

não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome

não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome

não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome

quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome

morei três anos num bairro que tinha o seu nome

espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome

espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome

espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome

espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome

a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome

quando a poesia é boa é como o seu nome

quando a poesia é ruim tem algo do seu nome

estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome

estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome

talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome

por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome”

 

Fabrício Corsaletti.

 

Read Full Post »

Pedro Gonzaga - Poeta, Músico, Tradutor, Professor...

Muito se fala sobre os tais sites de relacionamentos e como a juventude se relaciona com estes aplicativos da internet. Algumas pessoas criticam o tempo que os jovens passam em frente ao computador a teclar tempos infindáveis com pessoas que não conhecem pessoalmente (mas, com certeza, possuem alguma afinidade). Outras pessoas insistem que o internauta precisa ter um pouco de cuidado com o que dizem online e com quem se relacionam virtualmente. Aliás, cuidados estes que devemos ter também na convivência real. Devemos escolher bem nossos amigos e não devemos, igualmente, sair por ai a dizer impropérios a torto e a direito. Mas voltemos à internet… Uns são contra, outros a favor destes sites de relacionamentos como o Facebook, Twitter, Orkut e MSN e como tais sites interferem (ou não) na vida destes internautas compulsivos.

Eu confesso que sou assíduo usuário destes sites e me relaciono muito bem com todos eles. Tenho vários “amigos virtuais” e com eles troco informações, compartilho links interessantes e esta convivência é pacifica e bastante interessante. Tenho conhecido pessoas de outras cidades, outros estados e até de outros países. Dificilmente trocaria informações e bateria um bom papo com vários destes meus “amigos” não fosse esta possibilidade que a internet me disponibiliza. Sendo assim, dou graças a Deus a existência destes sites de relacionamentos.

Todo este preâmbulo só pra dizer que foi graças à Internet que conheci o poeta gaúcho Pedro Gonzaga. Para ser mais exato, a primeira vez que vi Pedro Gonzaga foi no programa Camarote TVCom (TVCom Canal 36 grupo RBS) no quadro Crônica Falada apresentado por Katia Suman. Fiquei impressionado pela desenvoltura e inteligência do moço. Depois quando a apresentadora Katia Suman resolveu lançar sua própria rádio na internet com o nome de Rádio Elétrica ela convidou o Pedro para que este apresentasse o programa “Música Para Adultos”. Uma programação musical do mais alto nível e bastante eclético. Assim, virei fã deste poeta gaúcho. Trocamos umas mensagens pelo Twitter e pelo Facebook onde sempre peço uma música para ser executada em seu programa. Por vezes  comentamos um assunto e outro sobre nossas publicações nestes sites. Pedro é um gentleman e sempre atende meus pedidos, assim como de outros ouvintes. Devo dizer que ele é um cara bastante acessível e se mostra sempre interessado nas pessoas que o cercam. Responde sempre a todas as mensagens que recebe e “dialoga” com todos que estão nos seus círculos de amizades virtuais. Sendo assim, o considero meu amigo e, acima de tudo, seu fã de carteirinha.

Pedro Gonzaga é um cara multifacetado e multimídia. Veja só:

Poeta (com site na internet http://pedrogonzaga.wordpress.com),

Escritor com os seguintes livros publicados: Cidade Fechada (2004) e Dois Andares: Acima! (2007),

Músico (saxofonista do Trio Chico),

Tradutor de Charles Bukowsky (deste escritor traduziu os livros: O Amor é um Cão dos Diabos, Bukowsky Textos Autobiográficos e Factótum. Todos da editora L&PM) e outros poetas mais.

Locutor de Rádio. Criador e apresentador do programa “Música Para Adultos” da Rádio Elétrica. Para quem estiver interessado seu programa vai ao ar todos os sábados das 16h às 17h. Jazz, MPB e muita música de qualidade. Acesse o site www.radioeletrica.com.br e deleite-se!

Ah sim… O cara também é professor.

Abaixo poemas deste poeta gaúcho que tenho orgulho de chamar de amigo:

Contestação

ela avança devagar sobre o piso da sala
seus pés deixam marcas úmidas, sal e areia
passos em um antigo tabuleiro de caça ao tesouro
ela traz consigo uma brisa e um cheiro de mar
nos cabelos a espuma das ondas rebentadas
não consigo deixar de vê-la, meu deus
não consigo cerrar meus olhos:
como não amar sua pele jovem
feita de mel e amêndoas?

toma-me o desespero do instante
de ver na juventude dela
o tempo que já não tenho
de saber que não pode haver equilíbrio
na contemplação
no petrarquismo
foda-se o poema,
foda-se a necessidade da poesia
quero-a agora
quero-a como nunca
já estou farto de saber
silêncio, poetas
quero-a
digo a ela
crava-me os dentes
reputo falso
ouviram?
que nada se salva de uma tarde de verão.

-X-

Quase Já Não Há Garotas Sentimentais

quase já não há garotas sentimentais
a música popular, os anúncios das vitrines
os seriados da televisão as exortam ao ataque impiedoso
constrangendo sua necessária timidez

quase já não há garotas sentimentais
pelo simples fato de que o sentimentalismo
esvaziado de sua aura de folhetim
estava para dourar o interesse pragmático do casamento

quase já não há garotas sentimentais
em porto alegre
mas creio que em nova iorque ou hong kong
não seja diferente

quase já não há garotas sentimentais
porque hoje envergonha sentir em surdina
é preciso exagerar em coreografias e penteados
que revelem tudo aquilo que a norma pede

quase já não há garotas sentimentais
e por isso o mundo está perdido
por isso o mundo só poderá ser salvo
quando voltarem à provença um exército de trovadores

-X-

Espera

o som do chuveiro
através da porta
o ruído abafado das roupas
tombando surdas
no chão de pedra
tua nudez imaginada
e ainda não vista
existe em mim
há muito tempo
teus braços de bronze mediterrâneo
tuas coxas fortes de singrar olivais,
desenho teus seios no ar
dou-te cada metade
de uma maçã da Pérsia.

da cama recolho os ecos de tudo
sonar que registra
a posição exata de um perigo.

a água pára e
tu perguntas que toalha usar,
já mescla de sibilo e canto,
respondo ofegante
e a porta se escancara.

à luz do banheiro,
vejo as duas fendas negras no ouro
de tuas narinas de águia
o brilho feroz de tuas plumas
tuas garras feitas para ferir
brutos marinheiros
e que agora
afortunadamente
vem me dilacerar.

-X-

Continuidade da Vida

que me importa a continuidade da vida
os genes transmitidos às cegas
o cinismo transmitido às claras

de que serve a ilusão da descendência?
almejas um amparo na velhice?
a certeza de permanecer nos outros?

permanecer?
chamas um nome
um punhado de valores insulsos
um terreno em Xangrilá
a carteira do clube tranchã
de permanência?

descansa em paz, amigo
alguém cuidará de teu cão
ninguém lerá meu Apuleio
ficará na capa o disco do Coltrane
e que importa isso?
se a morte é uma ilusão dos vivos
como pode importar a continuidade da vida?

mas então eu vejo minha sobrinha de quatro anos
o modo como ela aperta os lábios e se concentra
para pintar um bocado de criaturas estranhas
em folhas de papel que distribui sem economia
e tudo o mais deixa de ter qualquer importância.

Quando Alice sorri (ainda que o faça como atriz)
nem mesmo um tolo é capaz de pensar
na continuidade da vida.

para Alice

Read Full Post »

Érico Veríssimo reescreveu a história do Rio Grande do Sul com sua obra O Tempo e o Vento já comentada e discutida em todos os cantos deste país continental e certamente já traduzido para vários idiomas. Quem não leu o Tempo e o Vento deveria fazê-lo imediatamente uma vez que o autor é reconhecido como um grande escritor e soube, como poucos, narrar os fatos ocorridos no Rio Grande do Sul e descortinar a saga do povo gaúcho além de retratar momentos importantes da história brasileira. Mas não é sobre esta obra extensa que gostaria de escrever uma vez que tudo já foi dito, escrito e reescrito sobre O Tempo e o Vento. Muitos estudos foram feitos sobre esta fantástica saga rio-grandense. Quero publicar aqui a comovente e singela forma com que Érico Veríssimo descreve a cena em que Ana Terra se entrega ao amor do índio Pedro Missioneiro.

Deixo aqui minha homenagem a esta obra magnífica e a recomendação para que leiam O Tempo e o Vento. Impossível ficar indiferente e não se emocionar com o amor de Ana Terra e Pedro Missioneiro. Meu olhar passou sobre cada palavra destas linhas com o espírito daqueles que amam e valorizam este sentimento e todas as transformações que ele traz.

Emocione-se com o encontro amoroso de Ana Terra e o índio Pedro Missioneiro, descrita por Érico Veríssimo. Poesia pura!

“Num dado momento sua madorna foi arranhada por um estralar de ramos secos que se quebram. Teve um retesamento de músculos e abriu os olhos. Tigre ou cobra – pensou. Mar uma dormência invencível chumbava-a à terra. Voltou um pouco a cabeça na direção do ruído e vislumbrou confusamente um volto de homem, quase invisível entre os troncos das árvores, bem como certos bichos que tomam a cor do lugar onde estão. Ana então sentiu, mais que viu, que era Pedro. Quis gritar mas não gritou. Pensou em erguer-se mas não se ergueu. O sangue pulsava-lhe com mais força na cabeça. O peito arfava-lhe com mais ímpeto, mas a paralisia dos membros continuava. Tornou-se a fechar os olhos. E ouviu Pedro caminhar, aproximar-se num ruído de ramos quebrados, passos na água, seixos que se chocam. Apertava os lábios já agora com medo de gritar. Pedro estava tão perto, que ela sentia sua presença na forma dum cheiro e dum bafo quente. Sentiu quando o corpo do índio desceu sobre o dela, soltou um gemido quando a mão dele lhe passou num dos seios, e teve um arrepio quando essa mão lhe escorregou pelo ventre, entrou-lhe por debaixo da saia e subiu-lhe pelas coxas como uma grande aranha caranguejeira. Numa raiva Ana agarrou com fúria os cabelos de Pedro, como se os quisesse arrancar.”

“E o tempo passava… À noite Ana dormia mal, pensava muito e temia mais ainda. Procurava convencer-se a si mesma de que podia viver sem Pedro, continuar como era antigamente. Achava que tudo tinha acontecido só por causa do calor e de sua solidão. Mas se por um lado ela queria levar os pensamentos para essa direção, por outro seu corpo ia sempre que possível para Pedro, com quem continuava a encontrar-se à hora da sesta no mato da sanga. Ficava com ele por alguns instantes, com o coração a bater descompassado. Falavam muito pouco e o que diziam nada tinha a ver com o que faziam e sentiam. Eram momentos rápidos, excitantes e cheios de sustos. E no dia em que pela primeira vez ela sentiu em toda a plenitude o prazer do amor, foi como se um terremoto tivesse sacudido o mundo. Voltou para casa meio no ar, feliz, como quem acaba de descobrir uma salamanca – ansiosa por ruminar a sós aquele gozo estonteantemente agudo que a fizera gritar quase tão alto como os quero-queros…”

Abaixo a cena do encontro de Ana Terra e Pedro na mini-série O Tempo e o Vendo da Rede Globo

Read Full Post »

A Sétima Arte tem a capacidade de nos transportar para outras paragens além do que vê nossos olhos na tela (ou nas trilhas sonoras que nossos ouvidos captam) no momento em que assistimos a um filme na salinha escura do cinema.  Ele, o cinema,  pode, igualmente, nos apresentar um poeta que até então desconhecíamos. Foi assim que conheci a obra de E.E. Cummings no filme Hannah e Suas Irmãs dirigido, por Woody Allen há muitos anos atrás. Allen tem esta preocupação com a palavra e seus monólogos são célebres em seus trabalhos. Não foi com surpresa então que vi inserido neste filme a poesia de E.E.Cummings apesar de desconhecer o seu trabalho. Claro que corri a biblioteca mais próxima para ler outras poesias suas. Assim, é possível, através da Sétima Arte ter conhecimento de outros pensadores e ampliar horizontes. Obrigado Allen por me apresentar este grande poeta.

Abaixo a cena em que a obra de E.E. Cummings é apresentada ao grande público. E de brinda a bela trilha sonora tão característica da cinematografia de Woody Allen.

A íntegra do poema de E.E.Cummings.

 

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

Read Full Post »

Idea Vilariño, nasceu em 18 de Agosto de 1920 em Montevidéo, Uruguai em uma família de classe média. Seu pai Leandro Vilariño (1892-1944) foi um poeta conhecido e sua mãe era fã da literatura européia.  Idea Vilariño era poetisa, crítica literária, compositora, tradutora e educadora. Uma mulher extremamente culta e bela. Antes de completar 30 anos já era muitíssima conhecida por seu talento nas diversas atividades que exerceu. Seus versos foram traduzidos para inúmeros idiomas.

Dizer não

Dizer não
dizer não
atar-me ao mastro
mas
desejando que o vento o vire
que a sereia suba e com os dentes
corte as cordas e me arraste ao fundo
dizendo não não não
mas a seguindo.

O Que Sinto Por Ti É Tão Difícil

O que sinto por ti é tão difícil.
Não é de rosas abrindo-se no ar,
é de rosas abrindo-se na água
o que sinto por ti. Isto que roda
ou se quebra com tantos gestos teus
ou que com tuas palavras despedaças
e que logo incorporas em um gesto
e me invade nas horas amarelas
e me deixa uma doce sede dobrada.
O que sinto por ti, tão doloroso
como pobre luz das estrelas
que chega dolorida e fatigada.
O que sinto por ti, e que no entanto
anda tanto que às vezes não chega.

O Amor

Um pássaro me canta
e eu lhe canto
me gorjea ao ouvido
e lhe gorjeo
me fere e eu o sangro
me destroça
o quebro
me desfaz
o rompo
me ajuda o
levanto
pleno todo de paz
todo de guerra
todo de ódio de amor
e solto
geme sua voz e gemo
ri e rio
e me olha e o olho
me diz e eu lhe digo
e me ama e o amo
– não se trata de amor
damos a vida-
e me pede e lhe peço
e me vence e o venço
e me acaba e o acabo.

O Poema Ya No na interpretação da própria poetisa.

Read Full Post »

Older Posts »