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Posts Tagged ‘Joseph Gordon-Levitt’

A felicidade pode ser efêmera, mas não existe dor que dure para sempre

Já escrevi aqui neste blog que sou fã de comédias-românticas bem açucaradas e tudo mais. Foi com este espírito que resolvi assistir (500) Dias Com Ela dirigido por Marc Webb. Ledo engano meu. O filme até tem um pouco de comédia, claro. Muito de romance e discussões a cerca de relacionamentos homem/mulher. Isso mesmo, nesta ordem: Homem discutindo a relação com a mulher amada! Bem, já deu pra perceber que o filme inverteu a ordem natural das coisas ou aquilo que estamos acostumados a assistir em filmes românticos ou comédias leves. E para ser sincero, saiu-se muito bem neste propósito. Pelo título do filme já foi possível perceber a inversão de perspectiva narrativa bem como a inversão de valores visto que o homem é que terá seus sentimentos e aprendizados colocados entre parênteses! Aliás, uma narrativa nada linear uma vez que os dias apresentados na tela transcorrem sem uma ordem cronológica. Mas não se preocupe: de fácil compreensão em uma edição muito criativa. Uma visão um tanto quanto heterodoxa (se é que se pode usar esta palavra para uma simples resenha cinematográfica) das motivações e sentimentos amplamente aceitos (e inúmeras vezes repetidos) nos roteiros dos filmes classificados como “água com açúcar” ou “garota procura garoto para romance de final feliz”. Só que neste caso e nesta produção em particular, sob o olhar masculino.

Interessante que o título também já nos dá uma dica de como será o final do filme e o abandono do personagem principal da história e a sua desilusão com a perda do seu grande amor. É eu sei, contei o final do filme… Mas a culpa não é minha e sim do título e acredito intenção real de seus roteiristas! Mas não é um filme triste. Longe disso! Afinal, a vida é feita de perdas e ganhos e o espectador é convidado a entender (ou vivenciar) esta incrível história de amor sob a perspectiva masculina. Neste particular é que o filme é honesto, íntegro e, acima de tudo, sem utilizar de artificialismos e fáceis clichês. Ao colocar a premissa logo no início da projeção e no título do filme o espectador é convidado a não esperar os créditos finais para saber os destinos do jovem casal, mas a vivenciar a experiência de um romance fracassado e, em consequência, crescer como ser humano. Ou quem sabe mesmo tentar entender os motivos que levaram o casal a ter esta ou aquela atitude perante o relacionamento a dois. O que não deu certo? Onde o amor falhou? A culpa foi de quem? Procurar respostas para estas e outras perguntas é a intenção do filme e o espectador vai vivenciar estas questões e sofrer (e ser feliz) com Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) nos 500 dias em que amou e viveu ao lado de Summer Finn (Zooey Deschanel). Quinhentos dias entre parênteses, não se esqueçam!

Tom Hansen é um arquiteto formado que trabalha como escritor de cartões de felicitações em uma empresa de Los Angeles que no dia 8 de janeiro conhece Summer Finn a nova assistente do seu chefe. Amor à primeira vista, claro! Assim começa o primeiro dia. Ele é um cara romântico que acredita no verdadeiro amor, em relacionamentos sérios e duradouros e coisa e tal. Summer é uma mulher moderna, independente e completamente alheia a estas questões afetivas e que possui uma visão bastante liberal sobre relacionamentos, sexo e amor. Aliás, ela não acredita no amor e seus casos e encontros são puramente sexuais e efêmeros. Summer possui a mentalidade da maioria dos homens você deve estar pensando. Pois é… Aqui os papéis se invertem e quem gosta de discutir a relação é ELE e não ela! Para Summer é só um caso de verão e nada mais (Será este apenas um trocadilho infame dos roteiristas?).

Entre idas e vindas o casal vai levando a vida e o relacionamento se fortalece em determinado momento para enfraquecer em outro. A cena em que retrata o dia seguinte da primeira transa deles é simplesmente hilária e vai ficar como antológica da sétima arte. Todo mundo que teve na cama a pessoa amada (e perdidamente desejada) com certeza sente-se como se estivesse a bailar pela rua indiferente a multidão. Até mesmo ver passarinho azul deve ser coisa normal em momentos de extrema felicidade. O mundo se torna mais colorido, as pessoas mais simpáticas e tudo parece que vai dar certo. O tempo passa e Tom Hansen percebe que sua namorada (seria mesmo sua namorada?) possui um comportamento despojado demais para suas pretensões sérias de levá-la ao altar. Summer não é uma garota de guardar opinião e diz na lata o que lhe vem à mente colocando seu parceiro em verdadeiras arapucas e em situações constrangedoras (para não dizer de puro sofrimento e angústia). Mas o amor é mais forte e ele tenta, desesperadamente, não perdê-la.

Outra cena antológica (com certeza será repetida em outros filmes) é a perspectiva que a pessoa que ama tem em relação à realidade dos acontecimentos que envolvem a pessoa amada. Quem ama sempre tem expectativas favoráveis ao futuro do romance o que nem sempre acontece na realidade. Na cena em questão Tom é convidado a participar de uma festa na casa de Summer e neste momento a tela se divide em duas. De um lado assistimos as “Expectativas” de Tom em relação a este reencontro e tudo o que ele gostaria que acontecesse nesta festa que seria reatar o romance e ser o centro das atenções da mulher amada. Porém, o que se vê na outra metade da tela é justamente o contrário. A “Realidade” é mais crua e dura e é impossível não sentir uma pena enorme deste homem apaixonado e uma raiva imensa desta mulher insensível. Para piorar as coisas ele descobre que ela está noiva de outro cara! Ele deve ter pensado: “como assim?” A mulher sempre argumentou contra união estável e tudo mais e de repente ela vai CASAR com outro? O coitado sai em disparada da festa e o seu mundo desaba.

Sofrer por amor é duro. Ser abandonado quando se está perdidamente apaixonado mais cruel ainda… Mas a vida continua e é preciso seguir em frente. Por não ser uma comédia romântica padrão o filme retrata apenas uma fase na vida de um cara que se apaixonou pela mulher errada que nem de longe é sua alma gêmea. Solidão, abandono e a dura realidade pela frente. Assim ele larga o trabalho de fazer cartões de amor e felicitações vazias e sem sentido (isso ele descobre depois) e vai procurar emprego como arquiteto. Outra grande ironia do roteiro. Enquanto Tom dedicava sua vida a escrever sobre amores, felicidades e confraternizações em cartões para enamorados anônimos seu destino tratava de impor-lhe outra dura realidade. De tanto escrever sobre felicidade acreditava, sinceramente, que encontraria sua alma gêmea e então também teria direito a receber seus cartões em datas festivas. Um cara que sabe escrever sobre o amor deveria saber conquistar a mulher amada. Mas não foi o que aconteceu como se viu. Quando finalmente resolve dedicar-se a projetar “sonhos reais” (liberdade poética minha) e a desenhar linhas em ferro, concreto armado e a fazer cálculos matemáticos o amor, finalmente, bate-lhe na porta. Assim é a vida! Nada melhor que um novo amor para esquecer um amor perdido.

Gostaria de abrir outro parêntese aqui (como tantos parênteses neste texto e no próprio título do filme). Ou um novo parágrafo como queiram. Enfim… Gostaria de acrescentar que ao assistir (500) Dias Com Ela tive a impressão de estar assistindo um filme de época. O figurino; os cenários; a fotografia; os gestuais dos atores, tudo me levava a crer que a história de Tom e Summer se passava na década de 60 ou 70. Claro que as cores utilizadas no filme não eram berrantes ou caleidoscópicas como naquela época. Mas o corte das roupas, a fita no cabelo da Summer; o colete inseparável de Tom; o madeiramento do escritório e os prédios sempre antigos retratados nas ruas de Los Angeles me levaram a ter esta impressão. Até o relógio que o despertava para a triste rotina era um modelo bastante antiquado (ou me pareceu no momento) e a loja onde só apareciam discos de Vinil. Levei um susto, porém quando vi a cena em que Tom e sua jovem irmã estão a se divertir em uma partida de vídeo-game em um aparelho de última geração com joystics sem fio! Pelo visto só eu tive esta impressão de “filme de época” já que não li nenhum comentário neste particular dos meus amigos que viram o filme.

Para os que estão a chorar rios de lágrimas neste momento por um amor perdido ou não correspondido esta história é bastante ilustrativa e mostra que nem tudo está perdido e que este momento de sofrimento é passageiro. No futuro irão perceber que a dor não era tanto assim e que aquele amor na realidade foi mesmo é superestimado (ou não… vai saber). Para usar um velho clichê diria que “o tempo cura todas as feridas”.  Se existe uma lição de vida para ser aprendida neste filme (e sempre se aprende alguma coisa em produções com esta qualidade e honestidade) esta lição poderia ser resumida numa frase: A felicidade pode ser efêmera, mas não existe dor que dure para sempre. O clichê é meu, podem atirar as pedras!

 

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