Continuando as minhas respostas ao Desafio Literário que criei no Facebook. Veja abaixo mais cinco respostas:
6º Um Livro Que Você Abandonou Antes do Final
Durante oito anos (1989 a 1997) a jornalista Xinran entrevistou centenas de mulheres chinesas e parte destas histórias de dor, humilhação, abandono, casamentos forçados, violência sexual e ignorância estão narradas de forma simples e objetiva, nas duzentas e oitenta e uma páginas do livro As Boas Mulheres da China. Muito dos relatos contidos neste livro vem da própria cultura que diz“numa mulher, a falta de talento é uma virtude” e que a mulher chinesa, de tanto ouvir, acabou acreditando e de alguma forma se submetendo ao pai, marido e ao regime comunista.
Apesar das histórias tristes e comoventes o livro não chega a empolgar visto que as narrativas são ao estilo “livro de auto-ajuda” onde a escritora parece que sempre precisa tirar uma “moral da história” ou sempre tem um conhecimento superior dos fatos e sofrimentos alheios. Por vezes cansa por usar sempre a mesma fórmula de contar estes dramas humanos e por se colocar sempre à margem dos fatos como se ela também não fosse Chinesa e não tivesse conhecimento da condição da mulher em seu país. Ela não conta sua própria história e não abre seu coração, assim como suas ouvintes ou entrevistadas e passa sempre a impressão que não é uma mulher que vive no mesmo ambiente cultural daquelas pessoas.
Seria interessante conhecer a própria história de vida da jornalista Xinran e talvez assim tivéssemos a real fotografia do povo feminino e sofrido deste grande país que é a China. Dizer que os relatos da menina que tinha uma mosca como bicho de estimação, ou da menina que foi estuprada pelo pai ou mesmo da mãe que vivia como catadora de lixo só para ficar perto do filho rico não comoveu é falso. Mas pareceu-me mais um amontoado de histórias trágicas individuais sem que com isso pudéssemos ter um painel mais amplo da vida e da cultura daquele povo milenar.
- As Boas Mulheres da China, Xinram
8º Um Livro Que Você Recebeu de Presente Recentemente
Não sei se vale, mas o último livro que recebi de presente não foi somente um, mas os 30 livros que minha amada conseguiu colocar no tablet e que já dei cabo de um, A Rainha Liberdade – O Império das Trevas (risos).
Considerando-se livro físico, o último foi Quando Nietzsche Chorou, de Irven D. Yalom no natal retrasado (ou anterior ainda…)
- Quando Nietzsche Chrou – Irven D. Yalom

11º Um Livro Que Você Emprestou e Nunca Foi Devolvido
Emprestei o livro 1984 de George Orwell e até hoje estou esperando a devolução. Mas já considero perdido para todo o sempre. Poderia citar este livro também no quinto desafio uma vez que já o reli mais de três vezes.
Só pra constar, comprei novamente porque não tem como não ter este livro na estante.
12º – Um Livro Que Você Pediu Emprestado e Nunca Devolveu
A resposta a este desafio é, na realidade, uma conseqüência do 11º desafio. A pessoa a quem emprestei 1984 de George Orwell na oportunidade me emprestou o livro “Bar Don Juan” de Antônio Callado. Como ele nunca apareceu para a devolução do meu exemplar também não tive oportunidade de devolver o que me foi emprestado.
Não é por nada, não. Mas fiquei em desvantagem!!!
- Bar Don Juan, Antônio Calado.

13º – Um Livro Que Tenha o Melhor Início.
A Montanha e o Rio, de Da Chen é realmente de tirar o fôlego já na primeira página. O Romance todo é muito bom e prende o leitor do início ao fim com a disputa dos irmãos pela mulher amada. Daria um ótimo filme…
Segue o início da primeira página.
CAPÍTULO 1
1960
BALAN, SUDOESTE DA CHINA
Shento
PARA CONTAR A HISTÓRIA do meu nascimento, não vou começar pelo início,
mas pelo fim do meu começo. Para falar a verdade, nasci duas vezes. A primeira foi quando rasguei a passagem escura das entranhas de minha mãe. A segunda foi quando o velho curandeiro da aldeia me salvou. A jovem que me deu à luz pretendia acabar com tudo, não apenas com a sua vida, mas também com a minha, no exato momento da minha chegada a este mundo. Tinha pressa em se atirar do penhasco que ficava no topo do monte Balan, mas eu fui mais rápido do que suas pernas inchadas e escapei de seu ventre bem no momento em que ela avançava para a beira daquele precipício fatídico. As pessoas da aldeia tentariam imaginar o que a teria levado a isso, transformando-se numa espécie de mito ao saltar do ponto mais alto da montanha, comigo ainda ligado a ela pelo cordão da vida, o emaranhado cordão umbilical.
Pulei para fora antes que ela se atirasse no abismo, nascido em pleno ar, pairando acima de tudo. Posso imaginá-la lançando-se daquele penhasco escarpado como uma águia planando em direção ao solo, liberta de seu ninho, de suas amarras, de seus pecados, em seu lamento final, para ser esquecida pelo vento que fazia esvoaçar seu cabelo viçoso de moça, enquanto se arre messava precipício abaixo. Nós dois, anjos geminados e sem asas, caíamos em queda livre. Mas o impensável aconteceu. A mão do destino interveio. Eu, o recém-nascido choroso, caindo no rastro de minha mãe pela encosta do penhasco coberto de trepadeiras, fiquei subitamente agarrado aos galhos de um arbusto de chá que crescia na entrada de uma gruta. Em câmera lenta, num segundo que poderia ter durado uma vida inteira, rompeu-se o cordão umbilical. Apanhado por dois galhos flexíveis, soltei um grito assustador — minha ode ao vigoroso e resistente arbusto de chá. Minha mãe — o anjo de meu nascimento, de minha morte — e eu nos separamos em pleno ar, com o sangue jorrando por todo o lado, respingando nas folhas. Fiquei balançando, suspenso nas alturas, preso nos galhos daquela planta abençoada. Minha mãe mergulhava em direção ao fundo, transformada num pequeno ponto que ia ficando cada vez mais diminuto, até que desapareceu no silêncio do vale que ficava lá embaixo, para nunca mais ser vista. Só muito depois é que eu viria a saber o motivo de minha mãe ter escolhido cantar a canção da morte tão cedo em sua vida. Por ora, eu estava pendendo de um galho, tão periclitantemente quanto se poderia estar. Porém, o destino interveio mais uma vez. A misericórdia divina desceu sobre mim na forma do velho curandeiro da aldeia — magro, ossudo e cheio de fé. Quando ele me ouviu chorando e me viu preso no penhasco açoitado pela ventania, desceu como um macaco para me resgatar. Felizmente, era tão ágil quanto um deles, pois sua atividade exigia que percorresse as cadeias de montanhas, passando por todos os cumes, por todos os vales, indo de caverna em caverna em busca do raro ginseng e da saliva de andorinhas cujos ninhos eram encontrados apenas nos locais quase inalcançáveis escolhidos pelas aves.
Ele desceu pela encosta do penhasco, abrindo caminho por entre os galhos das árvores, por vezes não encontrando os pontos de apoio para os pés e quase despencando numa queda fatal. Mas, naquele dia, os céus permitiram que apenas uma morte ocorresse. Ofegante, conseguiu me agarrar. Este momento é o que eu chamo de meu segundo nascimento, e que me foi concedido pela graça e misericórdia de Buda, pelas mãos de uma pessoa que tinha praticado boas ações dia após dia, cuidando de um vilarejo repleto de gente pobre e doente. Digo que foi a graça e a misericórdia de Buda e foi exatamente isso, pois se fosse um outro homem que tivesse escutado o meu choro e que, mesmo pela vontade de Buda, tivesse em seu coração a disposição e o desejo de salvar aquele pequeno ser, fosse ele um homem de bom coração ou não, poderia nunca ter conseguido fazer o que o curandeiro fez, porque ao coração daquele velho faltava um filho. O grito que lancei no ar, e que foi ouvido por ele, ecoou nos recônditos de sua própria alma, como ele mais tarde me contaria. Não era apenas o berro de um menino qualquer, mas o do seu próprio sangue. Ele estava a apenas alguns centímetros de distância de mim quando uma rajada de vento por pouco não me arrancou novamente das mãos da vida. Mas, segurando na raiz de uma árvore, ele estendeu um dos braços para me pegar, agarrando a minha perninha minúscula a tempo de me aninhar na dobra do seu outro braço. Para ganhar tempo e me salvar, fez o que ninguém tinha ousado fazer antes, descendo centenas de metros pelo penhasco íngreme, arranhando os joelhos e os calcanhares, quase fraturando os ossos, para logo em seguida correr de volta para casa ao encontro da mulher com quem era casado há quarenta anos, antes que os grandes felinos notívagos das montanhas pudessem sentir o cheiro do nosso rastro de sangue. Pegaram a cabra e a ordenharam. A mulher me alimentou com aquele leite como se viesse do seu próprio seio. Naquela mesma hora e naquele exato momento, deram-me o nome de Shento — o topo da montanha, o cume.
-Ele vai querer alcançar o céu, como o nosso sagrado monte Balan
-disse baba.
-E vai subir aos céus como o espírito de nossos ancestrais — acrescentou mama. — Será que podemos realmente ficar com ele como se fosse nosso próprio filho?
-Mas é claro que sim! Ele é uma dádiva da nossa querida montanha, uma recompensa pelas boas ações que praticamos.
-E se encaixa tão bem nos meus braços! — murmurou mama, acariciando meu rosto.
E assim termina a história do meu nascimento e começa a da minha vida.
O SOL SE PUNHA E A LUA subia no céu, e aos poucos fui me tornando um
menino da roça, robusto e forte, com o apetite de uma criança três anos mais velha. Mama me dava comida com uma colher de bambu do tamanho da usada pelos adultos. Não precisava ficar cantando nenhuma canção infantil para que eu comesse. Eu devorava uma colherada depois da outra até soltar pequenos arrotos. Meu prato predileto era bolo de arroz doce. Na nossa aldeia pobre, onde a comida de todos os dias era o inhame, arroz doce era coisa rara e preciosa. Baba tinha que percorrer muitos quilômetros para atender pacientes em povoados distantes e ganhar um dinheirinho extra para que eu pudesse comer aqueles preciosos bolos de arroz. Foi à antiga floresta, cortou as melhores varas de bambu e construiu um cercadinho, grande o suficiente para que eu pudesse engatinhar e dormir. Pôs o cercado perto de sua escrivaninha na enfermaria. Com o auxílio de mama, atendia seus pacientes, dava conselhos e praticava acupuntura comigo ali ao lado. Apoiado numa das paredes da enfermaria, havia um grande armário cheio de gavetas com medicamentos fitoterápicos que baba vendia aos seus pacientes, por grama ou por pitada. As gavetas tinham etiquetas com caracteres chineses antigos e misteriosos que apenas os médicos versados em textos clássicos saberiam reconhecer. Certo dia, aos dois anos e meio de idade, surpreendi baba ao citar e localizar dez das ervas mais comumente utilizadas. Aos três, eu já sabia reconhecer mais da metade delas. Quando tinha quatro anos, alertei baba de que ele tinha pegado uma pitada da erva errada para uma determinada receita. O aviso, disse baba, evitou que uma mulher grávida sofresse um aborto. Baba e mama estavam convencidos de que eu não era uma criança comum. Daquele dia em diante, baba começou a ler para mim os textos clássicos da medicina chinesa e me ensinou a memorizar os pontos usados na acupuntura. Uma noite, deitado na cama antes de adormecer, escutei por acaso baba falando baixinho para mama:
-O destino do nosso filho é ser o melhor médico que essas montanhas jamais irão conhecer. Com a sua inteligência extraordinária, imagine só quantas curas vai descobrir!
-Não! — retrucou mama.
-E por que não? Por que é que você discorda disso?
-O destino do menino vai além do seu desejo limitado — disse ela.
-Um dia, ele vai comandar milhares e governar milhões.
-Você não está sendo um pouco ambiciosa demais, minha querida esposa? — ouvi baba dizer.
-De jeito nenhum. Você não percebe? O nascimento dele foi um acontecimento trágico, e sua história não é diferente da vida de muitos imperadores que, vindos do nada, ascenderam ao trono dourado.

PS: Alguns desafios, por não existirem respostas, não foram citados.